quinta-feira, 14 de abril de 2016
vejo para lá da dor
pelo despertador de cordas dormentes
um elmo sobre partículas rarefeitas
algo se dispersando de pensamento nutridos
do alojar oblíquo de vidas cumpridas
como se desfiasse momentos sílaba
como se desafiasse puro improviso
o espaço calamitoso toma um rumo soberbo
quando coroados os vales do nosso peito
e inclinados os ribeiros das nossas lágrimas
a energia laminosa mimética de tudo
um espectro temperando veios violentos
quando o desfiladeiro de uma mente imprópria
austeramente as pétalas regressam à flor
renovando de arte ígnea
o esplendor da liberdade de não se ser nada
a antiguidade de deus
vem na palavra do adeus
e há frases que terminam por si mesmas
com uma inspiração prolongada
ou um gesto de pausa satisfeita
é o espaço preenchido do lugar do silêncio
o negativo do que faria sentido
que descarrega a sombra do imaginário
no arame acrobático do real
no lugar de torres de pedra estão linhas de seda
e bastaria que alguém saísse de tom
para o castelo de alusões se edificar
a poesia é um labirinto sem saída
ao enclausuramento do comum mortal
que espera desta uma revelação total
que esperas tu do cimo das alturas?
que a terra seja leito macio para todas as torturas
que compõem o teu fastio
a beleza vivente tem um tom lúgubre
o desejo de nos revestirmos lentamente de quente
há um outono lá fora que tudo despe
numa desarmonia de despedida
parte aquilo que já nos serviu
talvez cíclica a primavera seja promessa
débil feminina a vida em flor
se revestindo de prosa e amor
tento colmatar a saudade com a paisagem
terça-feira, 5 de abril de 2016
chovem elefantes
fatigados da viagem
elefantes seduzidos caem sem aviso
a queda do improviso
em alucinação contínua
inclinando a cabeça para adormecer
enquanto
gigantes flocos de nuvem
parecendo a própria nuvem
pedaços de céu caindo das alturas
rochedos ao embate diluente de sonho
o mundo aconchegando-se aos pedaços de alma
labirinto aberto de cavidades desertas
o mundo virgem
da tristeza oculta nas folhagens
quando as ondas começaram a enrolar para o mar
pela indefinível causa de existir ao contrário
no abatimento da saudade
há lugares que nunca foram habitados
como o profundo mistério
dos rostos sagrados do tecto
há um certo fastio nas criaturas eternizadas
nas cinzas enraizadas de animais domados
que fizeram da terra, pensamento tortura
por isso há elefantes caindo ao acaso
de mal calculo aterragem
as nossas histórias são ancoragem
por isso há memórias
que não parecem nossas
porque o que nos fascina é a cadência
deste vai e vem de esquecimento
onde tudo é momento primeiro
o que nos fascina mesmo
é nos descobrirmos ninguém
e como elefantes caindo
as nossas penas parecem mais leves
agitar antes de partir
assim tudo se vai falindo
entre todos os fragmentos que vão partindo
aos poucos
o pouco de mim que foram deserdando
se desfaz na memória do tempo que ninguém
refaz
os refractários impulsos
que vão surgindo de uma dor aqui e ali
mentes acordes discordes
demasiado vibrar
momentos silêncio investindo exercício em si mesmo
elementos acumulados
algum exemplo
ampliando o futuro da nossa impossibilidade
aqueles que passam na penumbra
almas de olhar aflitivo
irromper o predomínio dos pensamentos
através das íntimas sensações
há um diálogo platónico
entre nós e a morte
inviolável estilo de invisibilidade
que quanto mais perto mais vago
talos vazios de espinha dorsal
muros de equilíbrio solitário
fendas de solo que nos delimitam
experimental o momento da hora mágica
em que nos desprendemos de tudo o que é terreno
o perímetro desconhecido da inquietação
o império do sentido
o faro das terras do inferno
quando as amarguras se desprendem da azáfama
e esperamos enfim pelo desejo ardente
de nos aprisionarmos numa casa
na semente de oiro das horas de sono
apalpo de vez em quando o conforto sólido
dos andarilhos que promovem o céu
para a cabeça se confundir de nuvem
a terra, ao longe, uma manta de ávidas criaturas
acresce gente barulhenta ao mundo a todo segundo
numa casa redoma clarabóia o sol é apenas uma estrela
há um suspiro vago de deus no olhar afogado da lua
parece que de noite os gritos soam mais alto
na concertina para gatos que dominam os telhados
no arrombo da sombra os sonhos são brancos (prantos)
a mim apetece-me chorar também
como um sopro de angústia que parece respirar outro corpo
são os passos lentos de uma estranheza
que toma o espaço vago da consciência
há uma necessidade imperativa do frio
uma alma que se encosta à parede
quando o corpo arde de sede
porque as ideias fixas se derretem em lágrimas
em carcaças de arrependimento
que tresandam a medo
& companhia
reconhecer-se
o vício descontrolado magistral
na mão dos contínuos vocábulos
as ferragens do silêncio
sobre o tic-tac do intenso calor do dia
das paredes abafadas
pela toca dos ratos
pelos buracos da meia
tudo tectos baixos
para casas caiadas da ignorância
porque a poesia se pisa de pavimentos
incoerentes
as delinquências
faíscam pelas pedras da calçada
os saltos de verniz pegando fogo
havia um ramos de flores
murchando na paragem do socorro
o tapete verde da entrada
candeeiros latejantes de bafio escriturário
um diploma ao pendurão
tomando o maior lugar do coração
há um ser inquieto no sósia que encontro no espelho
no ar contrafeito que enxuga o peito
porque os poros já não transpiram vida
há uma alma de reserva que parece estar esquecida
entre os detalhes do compromisso
do ser-se isto ou aquilo, das nove às cinco
sexta-feira, 1 de abril de 2016
o lugar da poesia
os grandes olhos mortais
duas almas sem par
dos mistérios arredados de um lugar habitado
a palidez das imagens reflectidas
convertidas do tempo em pó
do lugar dos dias vulgares
pousando na perplexidade de um tecido brando
fragmento de vida tangível
retida em todas as tardes inesgotáveis
que as mãos suando de coisas inefáveis
apalpavam o mistério receptáculo do sonho
a hora insólita da poesia
aproxima o exercício do encontro interior
há um mundo obscuro no coração de cada segredo
na infinita longivez de cada luta
sempre virgem inquieta
o ritmo interior das coisas antiquíssimas
deve permanecer inacessível
qual o sustentáculo de toda esta ruína
meu coração é uma criatura extenuada
ávida de esgotar a sua própria sede
o que se acredita é pedra bruta
e em todo o acto de continuar a lapidação
a presença constante de um amor-deus
porque te persegue a mutilação de ser livre
o magnetismo do sangue percorrendo o corpo
contornando as chagas do sofrimento
para embalar um momento de cristal
frágil é a felicidade
quando ao vento atiramos cada chance
e nós sepultos em todos os cantos do mundo
em todos os atalhos nos cruzamos
como reflexos espantalhos espelhos
o mistério da morte revelado na carne mortal
contemplamos estátuas em cidades de pedra
donde desaparece uma memória
dissolver-me-ei nas noites húmidas sem luar
a alma cinética não querendo levitar
corre o tempo na monotonia das estrelas
a hora irremediável dos dons da terra
no lugar do silêncio
a evocação de repente de um gesto
a forma como tocas o queixo
ou afagas o cabelo
ou caminhas pelo passeio
ou esse jeito do canto do lábio
a distância são vozes que apregoam a morte
uma pessoa vai-se embora sumindo-se
esse paralelo horizonte de águas fluídas
móvel dançarina ou árvores turbinas
tudo revirando-se de fatalismo finito
a presença fraca da vida
linha ociosa de metáfora
tudo é sempre outra coisa
a névoa é um olhar fantástico nosso fado
então o chão é mais intenso por dentro
aplainar esse caminho espinhoso
porque somos de carne e osso e horizonte
a evocação de todas as palavras é em vão
porque nos respiramos de distância
serão longe os sonhos que deus enviou
por empréstimo
nesse gesto
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