sábado, 1 de março de 2025

Pagad

 
andam os pássaros desarvorados 
tontos no céu 
en piruetas habilidosas de asas
acidentes de ninho 
estão os céus cor de rosa
no mistério da unidade etérea 
elemento ar e desapegamento de terra
o meu peito também é desarvorado
pentagrama para baixo e substância imaterial 
tem o seu próprio mapa sideral
A noite cai húmida pela cintura 
busca por ocasos profanados
a noite escura transgressora liberta
e a lua de trono coroa com orbes
candeeiro de templo portal de alma
á espera da colheita final
havia o tempo de ser criança 
do entendimento primário e contra baloiço 
de correr livre de roupa e balança 
físico, meta sereno e empírico 
ornamentos de jardim simbólico 
com cabeça de esfinge, carros de triunfo 
e leões negros de peluche
esses foram os pilares do meu tempo
função hermética de cabeceira de vento
e moínhos no cimo do monte
o tempo das garrafas de ar
dançantes 
cristais de azul lápis e tela virgem
e cavalos de pau fixos no sótão 
esses são os páteos da minha cabeça 
da loucura atual instante 
o lugar da fantasia a dentro 
imagens que agora são âncora 
cabeça de chacal e força 
talvez demasiado centrípeta 
era uma noite forte e escura, ermita 
encarnada do cativeiro do corpo 
e cavalgava abrupta
para o culto do meu esqueleto 
o meu corpo sangra agora
na criação de horas mutantes
sementes que depositei no horizonte 
para envelhecer no alpendre 
e ao meu lado senta-se a criança 
que sabia de cor o alfabeto 
que somava e subtraía
as dores em peças de lego
sentam-se finalmente serenas 
depois de tantas trevas
as duas em silêncio, meditando 
e no silêncio absoluto desse alpendre 
enquanto o sol nasce do seu horizonte 
tocam-se como placas tectónicas 
promovendo o milagre sísmico poético
A poesia é um grande abanão 
chora, grita, bate no chão, vibra
e significa.. estar Viva