na penumbra do quarto de hera viscosa
simples essências emanavam em teia
respirando purificando de muito verde
gestos delicados ao mais ínfimo sopro
de quem dorme no desconsolo da obra
lugar esculpido em paz
ela dorme junto ao chão coaxando
ventre peito rosto de abandono
o chão é fresco de pedra cinza
cifra cicatrizante com rastos de sangue
a alavanca postada para a abertura de um fosso
espécie ancestral de espumante raiva
esbatido apenas se vislumbra um fosso
subsistência onírica que o amanhecer esbate.
uma parte da mão está descaída nesse cenário
omitida fervendo na desordem do submundo
que não é mais o ritmo da vida mas sim lírica
para trazer à boca uma sede infinita de outra boca
e aos olhos os pântanos secretos de outros olhos
eles passarão, por esse pequeno canal ventral
mas o corpo é pesado e simbiótico do quarto
ecoa a dor da impossibilidade exilado
não sabe que espécie de charada escavada cela
era um quarto sem janela rotativo aquático
talvez fosse um aquário
e um corpo que não sabendo nadar estava depositado
sedimentado como areias ou algas ou pedra
sem necessidade de criação a grande casa inteira
por essas alturas o tecto de toda a largura da terra
e girava rodava sobre si mesmo um lugar frio
um corpo acolhendo outro corpo já morto
se a vida fosse vontade ou intuito sem credo
sou como fantasma inteligível aos olhos
se nos esquecem os olhos um do outro
e o negro nos consome de branco por dentro
tudo ressequido de palidez absurda
e o tempo enrola-se sobre si mesmo desdobra-se
de concreto medo, é neste verso que nos sugam
para dentro desse penhasco invertido ardente
as pedras, areias, e por fim a hera
esta parede cratera de céu aberto não é mais a terra
antes uma nave à deriva pelo espaço siderado
um sistema sem futuro nem coordenadas
o corpo já não sabia se coaxava no chão...
ou se era a pedra já cinza sedimentada...
ou se no princípio era o verso em si mesmo
comido dentro da própria boca, na cegueira do
mesmo olhar, espelhos um do outro
para divagar...sem mais tempo...pela escuridão
do inferno