sexta-feira, 24 de abril de 2026

Andantes


chagas, cruzeiros de mente natura atracada
castigos híbridos de onda vai e vem purga
pescados à linha sabido de dias movidos de névoa
interlocutores de momentos que a vida toma 
de arremesso só porque sim, cultivando o fim
e contamos ínfimas pequenas fatalidades 
da mais diabólica força das circunstâncias 
sentada na varanda, o rio escortinado de arame farpado 
mulher bruta estremecia do canto arrumado 
rio ria rua sobre estaca e grua, pequena gorda rígida
a rua regorgitada escorria água e lua
era peça frágil fácil rapariga de lancil
mulher indígena de riacho sinistro beleza rara
tinha vegetação luxuriante oculta entre os montes
ternura reconhecida entre horizontes 
tinha-se levantado de madrugada antes de dormir 
num estado sonâmbulo fantasma meio sombra 
quando era criança e era deitada numa pele de vaca
escutava os cascos filigrana de cágado 
era só indígena de pedaço de terraço 
acho que o meu choro era rio sentado na proa
momento insuportável 
talvez indígena de afecto pirilampo de tecto
e os meus olhos rodopiavam carroceis 
ligeiros de velas, porta a porta janela a pátio 
sentaram-me à mesa, vago e inquieto
hoje sinto como objecto obsoleto 
é, sermos refeição para ingrenagem favos
interrompe-me o silêncio da noite 
eles ressonam eu respiro 
foram noites infernais que me punham em choro 
imagina que no cachimbo são lascas de pele
e com as unhas raspo a página amarelada
do livro mais entorpecido da prateleira
aninhar sem tossicar, dizer sem acordar
que a verdadeira família paginando-se cadeira
achava-mos que a pólvora era suor saindo 
da gaveta do sexo e da sagração do universo
era um dia muito mais velha
olhava pela janela escotilha de um barco já afundado 
que sabe do íntimo 
as mulheres muralhas servidas na refeição 
esmaltados de irriequietude
os barcos aguardavam até ao cais
encostados de conforto na escuridão
talvez entre rochas e vertigos, espírito vago 
tenho os restantes anos assentes nos joelhos 
costumava crer que éramos todos iguais 
quem chegava tarde penteava sobre... 
Ela tinha sempre as mãos secas
subindo o alpendre da casa sem lâmpadas 
tínhamos de execução a escuridão 
às vezes os burros rondam a ilha 
mesmo antes da expulsão do vulcão 
havia resquícios
e ainda... 
nunca ninguém acredita 
que todas estas palavras são ficção 




domingo, 1 de fevereiro de 2026

Deus ex machina II

 Curvilínea áspera atmosfera dobrada por deuses 
áspera de pele massa philo de camadas de Cronos 
metidos dentro de si, patinando sorumbáticos
criaturas de altos standards e inteiriçados de veritas
olhos marejados de tristeza, róseo rosto de cabelo liso
heroínas e heróis de prateleira, vitrine de recheio


Havíamos percorrido tudo
com a embriaguez de um embrião 
para resvalar livremente 

quebrava-se o molde, por motivos perpétuos
ganha vida a figura por galerias flutuantes
olhos avultados e pasmados em lascívia 
rasga-se o sorriso para esgar assassino
olhos que nos perseguem de lugar vítreo 
sinais orações ondas de fogo 
bagagem sem passageiro que somos às vezes
a cidade vai-se descrevendo em clarões de sol
o espectáculo da noite império avança 
de tons argênteos e sombras de magros e alongados
membros, alma imergente em trevas

e o peito desvairado aperta-se para conter
quero por força desmaiar-lhe nos braços
mordo-lhe a boca, 
Beijo violento vampírio
beijo-me e desmaio, intensamente caído 
onde maquinalmente me converti em suicídio 
morde-me de novo como fruto maduro esse pensamento 
embarco no acrescento, na renda do medo
rendeiro das minhas entranhas, corpo patenteado
herdeiro dos montes desabitados da infância 
lugares de absoluto silêncio sobrenatural 
lugares de dimensão colossal
Linhas, preenchimentos de sombras, esbatimento 
Parti como folha desapegada da região lombar
o mundo tratando por tu a disposição topográfica 
da mente, com fome, demente, vibrante 
de noite ouvia-lhe os soluços em cânones de chuva
talvez uma tristeza de alma peninsular 
e chorava com a irredutível honestidade de uma criança 
que levamos de passeio numa aventura 

Há qualquer coisa de dramático

em perdermo-nos nos confins do horizonte 
porque nos haveríamos de pensar em fim
se ali começam todos os trilhos de corta-mato
porque rezar o repouso dos mortos quando
podemos voar com as asas tricolores do condor
e prolongar para além do tempo e do espaço 
como tudo o que é imortal 
o novo, fresco trigo ceifado 
atirado livre do colarinho duro das estações 
e a voz oculta dos que têm fome não têm refeições.

Eu nesse momento inspiro
insisto na exibição artística frustrada
no desmaiar da bailarina em estrada
bicos em alcatrão fervente de Verão 
assim são as lides do amor mercenário

 







domingo, 18 de janeiro de 2026

A celebração do nascer

Pela percepção ordinária de uma estrela 
um ponto onde convergem múltiplas exigências 
a pele tapeçaria de anos que ora se pisa ora se expõe 
nessa infinita dança cósmica, cada cor é possibilidade 
experimento mundano, de comum desatino, vespertino 
companheiro onírico de dança e choro, imprevisto 
abstracto é o paladar de cada vez que se desenha um traço 
Brutal o corpo edifício que se ergue contra o mar
como se ali tivesse sido depositado o medo
atracado perante o desconhecido limiar visual
preces, flores, oferendas
o mundo que se dobra em queda parede
para além da linha que desenhamos no mar 
lá bem no fim onde vai caindo e apagando-se
Edifício de peito aberto perante o fim
sem qualquer medo..livre por fim 
Vais pelo abismo fim
batendo inútil asas tu borboleta frágil 
Às vezes não encaramos esse declive de água em queda
preferimos imaginar que o ar se espalha e condensa em tudo
tudo é existente aquático e mergulhas tu
afinal dentro de água somos anfíbios 
em vez de pássaros sem asas ou homens perdidos no espaço 
e tudo é amparo e voltas de baile a realidade sem fixação 
porque a consciência e a beleza estão por nascer
oh ventre puro de verdades amnióticas
tudo é fornalha, fogo para consumo depois de nascer 
depois da engrenagem ser posta em andamento não há mais
volta atrás, volta para dentro, volta para a célula, volta mãe 
e mesmo em todo o vasto universo, por muito batido 
areias, pontes, montanhas, rios e seios
não se volta a sentir esse envolvimento quente e perfeito 
seguro, vermelho, ardente, de carne e possibilidade de nascer
nem todos nascem, alguns caem, outros são puxados ou sugados 
poderíamos supor que isso moldaria a nossa fibra de existir
porque uns quase que morrem asfixiados 
enquanto que outros anestesiados, abandonam o meio perfeito 
sem querer, sem irromper... Sem rasgo
a cria nasce roxa e precisa de chorar para se sentir viva
para se lhe bater o coração, e a pulsação ser rica
e os cordões terão de ser livres... corte de carne a sério 
para ficar bem visível a grande mentira da vida
não há nada que vivo esteja que não esteja preso por amor 
e todos esses anos que se lhe seguem...em busca do ventre 
havia consciência, sim. Seguro. Amortificado. paredes sólidas 
Nascer é imposto, é desafio. É ordem. Existir
E é preciso que por todos esses anos de anoitecer, se ignore
se esqueça, se consiga controla e dominar essa que é
a única constante: arte, vida e percepção 
Eu nasci de rasgão, no dia mais quente do ano
por isso amo o Inverno e todos aqueles dias de praia cinzentos 
que o mar convida ao regresso 
ao mergulho amniótico em que todos somos e não somos
Ondas de partículas, ondas que se erguem no molhe e se 
quebram no olhar que nos molha de choro


A realidade é tão volátil quanto o nosso movimento ocular











 


domingo, 7 de dezembro de 2025

Ite, missa est

 Das brigadas do tecido azul
cósmicos os tons ondeados da íris 
quebram-se de rasgos águas ferventes
nós dos dedos sacros cobertos de terra
Havia geada nos corações dos homens 
bicicletas caídas nas beiras de estrada 
peluches atirados do telhado e das fendas
figuras muito negras 

Sentaram-se no colo do sol de inverno 
de olhos fixos fulminantes no absurdo 
pela culatra do mundo 

o segredo nuclear habitava o negro dos olhos
na pele macia dos mortos
andava de cabeça para baixo 
cabelo descaído sobre o rosto
musgo debaixo da língua áspera 
e pequenas figuras alojadas na dentição felina
A mulher ergue a cabeça mãe, pescoço caule 
enrolada como erva má 
longe de ser vazio enredos e refúgio de horrores
Brilha no crepúsculo pétalas de rosa em coro
desconectadas as seivas são saliva seca
ergue-te oh insana cabeça de víbora 
da mundana canseira da labuta

Cada dedo bifurcava em atómicos cachos
cada dia prolongava em atómica hora
e os veios inchados de tanta pujança 
para punhados de vida em boa aventurança 
-tenho vivido em pleno toda minha temporalidade 
As palavras enrolam-se-me na pulsação dormente 
dos dias, dizia que nem todos eram habitados na cúpula dos deuses
havia quartos intermediários uns de recobro outros de dor e muitos mesmo de sonhos por definir 
as figuras de pedra estacionavam na panorâmica 
terraço de graus rotativos que rangiam 
como de noite no céu da boca em frescos 
e a fundo negro o céu do amanhecer sem querer
às tantas zumbidos e arranhões de garotos
a pele no fio lâmina para fatiados de amanhã 
Alguns vivem sem apetite, como isso é formidável 
são planadores sem catástrofe, em pura calma 
outros estagnadas lâmpadas de tecto, cegantes
gosto das ventoinhas de tecto, pêndulos horizontais 
hipnotizantes de ritmo furtivo
lembra quando entravas na roda ou no elástico 
hélice espiral vibrante e depois sair com mestria 
pousar de novo o pé no chão com convicção 
hirto, verticalmente existo


Este terminou, outros virão. 

domingo, 2 de novembro de 2025

A sedimentação do caos

 Em nós habitantes do verbo
compostos cuidadosamente no musgo 
na lágrima da teia, na castanha caída 
vago e materializado alheio de constelação 
construção de aberração e abismos brutos
trágico de brumas violeta fúnebres 
penalidade da paisagem faústica
arquétipos do combate violento da manhã imensa
amor esse ritual de oráculo inválido 
o pathos indecifrável que depois nos arde por dentro
tudo terá o peso do passado estóico 
uma tendência impurgável do estuário da mente
tudo é beira de máquina registadora 
Fio de lâmpada pendurado no tecto
Tecto céu que arde em lume brando 
estéril nu monólogo que trazíamos interplanetário 
sobrevoa a tudo isto comigo
sobrevoa em sobre voo tu e eu

Quando fotografei o rosto tinha o sulco do tempo
uma infância em rosto de velho, sorriso eterno

Talvez fosse sulco de sangue
acidente que se explica na violência 
quando se nasce no avesso, lado feio 

Estava lucidez, nunca estive tão plena e limpa
E da região báltica do meu coração serena

Havia um eco guarnecido de uma luz verde intensa
cor de verde atómico gâmico
Talvez uma cor de silêncio ensurdecedor 
de couraça de dureza que na surdina da madrugada 
nos pesa no seco, da boca se calhar do vácuo 

Às vezes a besta parece-me tão longe
que o ódio agora só me artificial 
Somente só.. nunca mais sentiria
A quimera acorda aqui a teu lado 
Finalmente em paz. 

Recordo-me de tudo desde o inicio
Sestas do feno, mascando o sonho do amanhã 
No Alentejo o amanhã parece sempre tão longe
as noites de varanda escaldantes, o apetite voraz
tudo para viver nada onde o metafísico é insano 
Fumos, noites infinito Céu do mais pálido riacho
tudo campos medonhos de silêncio 
Havia sempre silêncio na minha casa 
E as paredes contraiam-se-me de impaciência 
de horrores fictícios de outros nomes
parecer de uma pós guerra de si mesma 
Agora que regressas a um lugar que já não existe 
era um lugar com futuro 
e a paisagens foi revoluta, provocou a morte 
e com toda a sua sorte, aqui persiste 
em fiapos de memória 

Talvez tenha tido tantas pequenas mortes 
e os remendos de tear de lonas de aço 
Armadura mas sem amargo trago, destreza felina 
Dentadura canina, veneno reptílio e sobretudo 
Fibra da mais alta qualidade onírica 


Bravos, bravos terão de ser os próximos 
Porque agora em consciência 
cada aurora bate dentro do pano
E de cada vez que sobre o pano
sequestrado pelos sete cantos do universo 
Eu sei, estou vivo, sou eu o próximo verso e 
declaro o poema infinito ginástica espiritual 
pelo luto do primeiro momento 


Grande força tem a palavra
fala de quedas de neve ou de febres de guerra
fala da grande alegria e da universal agonia 
fala de todos mas rigorosamente todos
passarmos pela mesma linha
Gosto do olhar ternurento da despedida...

E da lágrima caída 
que diz, terminei, continua TU
















domingo, 28 de setembro de 2025

Cabeças Falantes

Dedadas a óleo e um âmbar de candeia
Obscura verde pantanoso uma janela fria
para inúmeros retratos que trepam a obra
um banco tremolo onde crianças trampolins 
se deslocam do sonho para a prova em gelatina
e sais de prata...
do Retrato ecoam esgares de gansos de gesso 
que ao canto do espelho se observam do avesso
criação de viagem no tempo
arquitecturas de memória temporária, caducas
Os cabelos enrolam e baloiços brincos de 
mais do que humanos, reconfigurados de molduras e recantos de roubos
molestantes da mente 
Às vezes respirar só à deriva
cânones de ânsias e formas inéditas de reentrâncias 
para juntar as peças e peso, de estarmos coeso
Reduzidos ao mínimo mistério 
proposta de visita em directo diálogo.

A minha mente tinha rampas
processos elevatórios junto á beira
Estamos sempre a um passo do depois..
tão frágil passo que pisando a fina camada de gelo
 passo 1 - sou feito de penas;
 passo 2 - caio à terra feito de ferro;
A pintura reduz-me á tela, não queria a musa
nem a lágrima da viúva 
O curral.. furacão..o vitral.. dilúvio e projecção 
Tinham crescido dentro de cubos, eram cubos
Experimento de mundos mudos, surdos.. obscuros 
E para espiar da aresta, o pescoço curvado 
Corpo manipulado cheio de ransos rarefeitos
olheiras até ao peito e cabelos colados de sebo
o lugar do extremo que agora ocupa vagos
Somos todos produtos de vácuos 
Néon para indicar a culatra da gente 
E alvéolos de sonho..pranchas de desenho indivisível 
Nasce sim uma figura de pé 
Da aparente disrupção narrativa 
Busto incompleto do mundo
Tal crânio vazio exposto no espelho
Polychromio sem alma, por isso sem desejo

Esfoladas ninfas
impressão tatuada de rasgos pedaços 
desenhos de lápis em papel marfim
página de álbum de catálogo de horrores 
corpo esculpido de fim de tempo
Corpo tombado em repouso
talvez quebrado no espaldar da cama
ou arrancado à infância 

Qualquer objeto podermos ser nós 
Qualquer nós em qualquer momento 
suspenso no tempo 

A sombra fica, projector de chão 
fica colada na parede da fita
Familiares...fases de corpos cem valas 
A moldura da execução do fim
Apropriada a campa céu vertical 
Porque se morre de pé 

Como uma onda parede tsunami 
Pancada 










sábado, 1 de março de 2025

Pagad

 
andam os pássaros desarvorados 
tontos no céu 
en piruetas habilidosas de asas
acidentes de ninho 
estão os céus cor de rosa
no mistério da unidade etérea 
elemento ar e desapegamento de terra
o meu peito também é desarvorado
pentagrama para baixo e substância imaterial 
tem o seu próprio mapa sideral
A noite cai húmida pela cintura 
busca por ocasos profanados
a noite escura transgressora liberta
e a lua de trono coroa com orbes
candeeiro de templo portal de alma
á espera da colheita final
havia o tempo de ser criança 
do entendimento primário e contra baloiço 
de correr livre de roupa e balança 
físico, meta sereno e empírico 
ornamentos de jardim simbólico 
com cabeça de esfinge, carros de triunfo 
e leões negros de peluche
esses foram os pilares do meu tempo
função hermética de cabeceira de vento
e moínhos no cimo do monte
o tempo das garrafas de ar
dançantes 
cristais de azul lápis e tela virgem
e cavalos de pau fixos no sótão 
esses são os páteos da minha cabeça 
da loucura atual instante 
o lugar da fantasia a dentro 
imagens que agora são âncora 
cabeça de chacal e força 
talvez demasiado centrípeta 
era uma noite forte e escura, ermita 
encarnada do cativeiro do corpo 
e cavalgava abrupta
para o culto do meu esqueleto 
o meu corpo sangra agora
na criação de horas mutantes
sementes que depositei no horizonte 
para envelhecer no alpendre 
e ao meu lado senta-se a criança 
que sabia de cor o alfabeto 
que somava e subtraía
as dores em peças de lego
sentam-se finalmente serenas 
depois de tantas trevas
as duas em silêncio, meditando 
e no silêncio absoluto desse alpendre 
enquanto o sol nasce do seu horizonte 
tocam-se como placas tectónicas 
promovendo o milagre sísmico poético
A poesia é um grande abanão 
chora, grita, bate no chão, vibra
e significa.. estar Viva