era uma casa de linhas desmaiadas a frio
entre a terra e o céu, o caminho mais longo de profundo
entre a terra e o céu, o caminho mais longo de profundo
dir-se-ia que os andares ao invés de subirem alongavam-se
e por dentro era infinitamente maior do que por fora
talvez no terceiro andar ou no segundo viviam
como irmãos entre vários família animal vícios
nos corredores da casa jaziam garrafas e beatas
nas camas os lençóis eram amarelos azedos tesos
e quando vejo passar vulto espectro de mim
uma figura mais pequena desnuda miúda frágil
vejo na zona lombar arder e o corpo consumir-se em buraco
assim pego-lhe ao colo e tomo-lhe o rosto, irmão
grito em desespero por ajuda mas dentro daquela casa ninguém respira
corro e as minhas pernas são tão pesadas que se colam ao soalho
grito mais alto e mais surda soa a minha voz em aquário, e choro
porque numa casa tão atribulada de cadáveres andantes
ninguém pára ninguém sente ninguém está verdadeiramente presente
arrasto-me levando-o em posição de feto, ele não se queixa
não lhe vejo a boca não sei se respira
e pela porta chegar às escadas em caracol, espiral vertigem
assim deslizamos mais forte escorregamos, a morte emprenha-nos
para finalmente passarmos pela porta e passar o alpendre
respiro fundo, deito-o a meu lado pálido enrugado, muito velho agora
a casa parece mais pequena mais equilibrada e sem dúvida inofensiva
ninguém nas janelas, nenhum movimento, silêncio absoluto dentro e fora
como em vácuo, acolho-o no meu peito, choro com ele, choro-lhe para dentro
o alimento líquido salgado translúcido, chega ao seu coração apertado
e em agonia espasmo, ele respira, bebé, pequeno, pele lisa e quente
maçãs do rosto vermelho sangue, e olhos, muito abertos vibrantes
toca-me aperta-me a mão pega de criança e um esgar de riso
e verde orvalhos azul muito azul de verdade e cheiro de flores
cheiro de leite cheiro de animais cheiro de doces
e na atmosfera em violência de enterro, a casa mergulha e desaparece
nem linha de terra nem sopro de mofo, a alma elétrica para fora do corpo
para poder finalmente em comunhão andar à toa, andar de livre
vem chuva e frio tudo a potes, crateras e e montes, sóis e noites
e o tempo instala-se nos ciclos do corpo, no seu tempo de ser gente
às vezes, anos muitos mais tarde, senta-se no baloiço da árvore
contempla o lugar, as linhas que a memória desenha no ar
e fica a pasmar, nas figuras familiares, coisas que por lá etéreas
...respira fundo...nesse lugar escuro e húmido...o mistério em silêncio