quarta-feira, 27 de maio de 2026

segmentos de fogo


na penumbra do quarto de hera viscosa 
simples essências emanavam em teia
respirando purificando de muito verde
gestos delicados ao mais ínfimo sopro
de quem dorme no desconsolo da obra
lugar esculpido em paz
ela dorme junto ao chão coaxando
ventre peito rosto de abandono 
o chão é fresco de pedra cinza 
cifra cicatrizante com rastos de sangue
a alavanca postada para a abertura de um fosso
espécie ancestral de espumante raiva
esbatido apenas se vislumbra um fosso
subsistência onírica que o amanhecer esbate.
uma parte da mão está descaída nesse cenário
omitida fervendo na desordem do submundo
que não é mais o ritmo da vida mas sim lírica
para trazer à boca uma sede infinita de outra boca
e aos olhos os pântanos secretos de outros olhos 
eles passarão, por esse pequeno canal ventral
mas o corpo é pesado e simbiótico do quarto
ecoa a dor da impossibilidade exilado
não sabe que espécie de charada escavada cela
era um quarto sem janela rotativo aquático
talvez fosse um aquário
e um corpo que não sabendo nadar estava depositado
sedimentado como areias ou algas ou pedra
sem necessidade de criação a grande casa inteira
por essas alturas o tecto de toda a largura da terra
e girava rodava sobre si mesmo um lugar frio
um corpo acolhendo outro corpo já morto
se a vida fosse vontade ou intuito sem credo
sou como fantasma inteligível aos olhos
se nos esquecem os olhos um do outro 
e o negro nos consome de branco por dentro
tudo ressequido de palidez absurda
e o tempo enrola-se sobre si mesmo desdobra-se
de concreto medo, é neste verso que nos sugam 
para dentro desse penhasco invertido ardente
as pedras, areias, e por fim a hera
esta parede cratera de céu aberto não é mais a terra
antes uma nave à deriva pelo espaço siderado
um sistema sem futuro nem coordenadas
o corpo já não sabia se coaxava no chão...
ou se era a pedra já cinza sedimentada...
ou se no princípio era o verso em si mesmo
comido dentro da própria boca, na cegueira do 
mesmo olhar, espelhos um do outro
para divagar...sem mais tempo...pela escuridão  
                                                  do inferno













 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

o poema é um lugar de ficção

 

era uma casa de linhas desmaiadas a frio
entre a terra e o céu, o caminho mais longo de profundo
dir-se-ia que os andares ao invés de subirem alongavam-se
e por dentro era infinitamente maior do que por fora
talvez no terceiro andar ou no segundo viviam
como irmãos entre vários família animal vícios
nos corredores da casa jaziam garrafas e beatas
nas camas os lençóis eram amarelos azedos tesos
e quando vejo passar vulto espectro de mim 
uma figura mais pequena desnuda miúda frágil
vejo na zona lombar arder e o corpo consumir-se em buraco
assim pego-lhe ao colo e tomo-lhe o rosto, irmão 
grito em desespero por ajuda mas dentro daquela casa ninguém respira
corro e as minhas pernas são tão pesadas que se colam ao soalho
grito mais alto e mais surda soa a minha voz em aquário, e choro
porque numa casa tão atribulada de cadáveres andantes 
ninguém pára ninguém sente ninguém está verdadeiramente presente
arrasto-me levando-o em posição de feto, ele não se queixa 
não lhe vejo a boca não sei se respira
e pela porta chegar às escadas em caracol, espiral vertigem
assim deslizamos mais forte escorregamos, a morte emprenha-nos
para finalmente passarmos pela porta e passar o alpendre
respiro fundo, deito-o a meu lado pálido enrugado, muito velho agora
a casa parece mais pequena mais equilibrada e sem dúvida inofensiva
ninguém nas janelas, nenhum movimento, silêncio absoluto dentro e fora
como em vácuo, acolho-o no meu peito, choro com ele, choro-lhe para dentro
o alimento líquido salgado translúcido, chega ao seu coração apertado
e em agonia espasmo, ele respira, bebé, pequeno, pele lisa e quente
maçãs do rosto vermelho sangue, e olhos, muito abertos vibrantes
toca-me aperta-me a mão pega de criança e um esgar de riso 
e verde orvalhos azul muito azul de verdade e cheiro de flores
cheiro de leite cheiro de animais cheiro de doces 
e na atmosfera em violência de enterro, a casa mergulha e desaparece
nem linha de terra nem sopro de mofo, a alma elétrica para fora do corpo
para poder finalmente em comunhão andar à toa, andar de livre 
vem chuva e frio tudo a potes, crateras e e montes, sóis e noites
e o tempo instala-se nos ciclos do corpo, no seu tempo de ser gente

às vezes, anos muitos mais tarde, senta-se no baloiço da árvore
contempla o lugar, as linhas que a memória desenha no ar
e fica a pasmar, nas figuras familiares, coisas que por lá etéreas
...respira fundo...nesse lugar escuro e húmido...o mistério em silêncio