domingo, 18 de janeiro de 2026

A celebração do nascer

Pela percepção ordinária de uma estrela 
um ponto onde convergem múltiplas exigências 
a pele tapeçaria de anos que ora se pisa ora se expõe 
nessa infinita dança cósmica, cada cor é possibilidade 
experimento mundano, de comum desatino, vespertino 
companheiro onírico de dança e choro, imprevisto 
abstracto é o paladar de cada vez que se desenha um traço 
Brutal o corpo edifício que se ergue contra o mar
como se ali tivesse sido depositado o medo
atracado perante o desconhecido limiar visual
preces, flores, oferendas
o mundo que se dobra em queda parede
para além da linha que desenhamos no mar 
lá bem no fim onde vai caindo e apagando-se
Edifício de peito aberto perante o fim
sem qualquer medo..livre por fim 
Vais pelo abismo fim
batendo inútil asas tu borboleta frágil 
Às vezes não encaramos esse declive de água em queda
preferimos imaginar que o ar se espalha e condensa em tudo
tudo é existente aquático e mergulhas tu
afinal dentro de água somos anfíbios 
em vez de pássaros sem asas ou homens perdidos no espaço 
e tudo é amparo e voltas de baile a realidade sem fixação 
porque a consciência e a beleza estão por nascer
oh ventre puro de verdades amnióticas
tudo é fornalha, fogo para consumo depois de nascer 
depois da engrenagem ser posta em andamento não há mais
volta atrás, volta para dentro, volta para a célula, volta mãe 
e mesmo em todo o vasto universo, por muito batido 
areias, pontes, montanhas, rios e seios
não se volta a sentir esse envolvimento quente e perfeito 
seguro, vermelho, ardente, de carne e possibilidade de nascer
nem todos nascem, alguns caem, outros são puxados ou sugados 
poderíamos supor que isso moldaria a nossa fibra de existir
porque uns quase que morrem asfixiados 
enquanto que outros anestesiados, abandonam o meio perfeito 
sem querer, sem irromper... Sem rasgo
a cria nasce roxa e precisa de chorar para se sentir viva
para se lhe bater o coração, e a pulsação ser rica
e os cordões terão de ser livres... corte de carne a sério 
para ficar bem visível a grande mentira da vida
não há nada que vivo esteja que não esteja preso por amor 
e todos esses anos que se lhe seguem...em busca do ventre 
havia consciência, sim. Seguro. Amortificado. paredes sólidas 
Nascer é imposto, é desafio. É ordem. Existir
E é preciso que por todos esses anos de anoitecer, se ignore
se esqueça, se consiga controla e dominar essa que é
a única constante: arte, vida e percepção 
Eu nasci de rasgão, no dia mais quente do ano
por isso amo o Inverno e todos aqueles dias de praia cinzentos 
que o mar convida ao regresso 
ao mergulho amniótico em que todos somos e não somos
Ondas de partículas, ondas que se erguem no molhe e se 
quebram no olhar que nos molha de choro


A realidade é tão volátil quanto o nosso movimento ocular