domingo, 2 de novembro de 2025

A sedimentação do caos

 Em nós habitantes do verbo
compostos cuidadosamente no musgo 
na lágrima da teia, na castanha caída 
vago e materializado alheio de constelação 
construção de aberração e abismos brutos
trágico de brumas violeta fúnebres 
penalidade da paisagem faústica
arquétipos do combate violento da manhã imensa
amor esse ritual de oráculo inválido 
o pathos indecifrável que depois nos arde por dentro
tudo terá o peso do passado estóico 
uma tendência impurgável do estuário da mente
tudo é beira de máquina registadora 
Fio de lâmpada pendurado no tecto
Tecto céu que arde em lume brando 
estéril nu monólogo que trazíamos interplanetário 
sobrevoa a tudo isto comigo
sobrevoa em sobre voo tu e eu

Quando fotografei o rosto tinha o sulco do tempo
uma infância em rosto de velho, sorriso eterno

Talvez fosse sulco de sangue
acidente que se explica na violência 
quando se nasce no avesso, lado feio 

Estava lucidez, nunca estive tão plena e limpa
E da região báltica do meu coração serena

Havia um eco guarnecido de uma luz verde intensa
cor de verde atómico gâmico
Talvez uma cor de silêncio ensurdecedor 
de couraça de dureza que na surdina da madrugada 
nos pesa no seco, da boca se calhar do vácuo 

Às vezes a besta parece-me tão longe
que o ódio agora só me artificial 
Somente só.. nunca mais sentiria
A quimera acorda aqui a teu lado 
Finalmente em paz. 

Recordo-me de tudo desde o inicio
Sestas do feno, mascando o sonho do amanhã 
No Alentejo o amanhã parece sempre tão longe
as noites de varanda escaldantes, o apetite voraz
tudo para viver nada onde o metafísico é insano 
Fumos, noites infinito Céu do mais pálido riacho
tudo campos medonhos de silêncio 
Havia sempre silêncio na minha casa 
E as paredes contraiam-se-me de impaciência 
de horrores fictícios de outros nomes
parecer de uma pós guerra de si mesma 
Agora que regressas a um lugar que já não existe 
era um lugar com futuro 
e a paisagens foi revoluta, provocou a morte 
e com toda a sua sorte, aqui persiste 
em fiapos de memória 

Talvez tenha tido tantas pequenas mortes 
e os remendos de tear de lonas de aço 
Armadura mas sem amargo trago, destreza felina 
Dentadura canina, veneno reptílio e sobretudo 
Fibra da mais alta qualidade onírica 


Bravos, bravos terão de ser os próximos 
Porque agora em consciência 
cada aurora bate dentro do pano
E de cada vez que sobre o pano
sequestrado pelos sete cantos do universo 
Eu sei, estou vivo, sou eu o próximo verso e 
declaro o poema infinito ginástica espiritual 
pelo luto do primeiro momento 


Grande força tem a palavra
fala de quedas de neve ou de febres de guerra
fala da grande alegria e da universal agonia 
fala de todos mas rigorosamente todos
passarmos pela mesma linha
Gosto do olhar ternurento da despedida...

E da lágrima caída 
que diz, terminei, continua TU