sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

de esmalte azul

 
como uma obra completa mais um conjuro
a forma do corpo homogéneo petrificado
o movimento constante já expelido do agir
para a consequência perpétua do alimento
do corpo sem voz ou da pele sem carne 
do pálido antes opulento embalo de vento
partida para uma qualquer ilha batida de sol
onde cada árvore se aninha no céu inexorável
as aves trazem mensagens nas suas asas 
paira sobre a ilusão uma realidade semi dura
mental e emotiva pulsante de pinceladas
cremos que cada significado tem o seu lugar
sobre os promontórios da alma
a seiva da memória ceifando drástica 
um quadro onde tudo se vai desmoronando
na sua roda trincada embalsamando o animal
ainda vivo, derrotado de insondável imaginário
tinha-me habituado ao estado onírico e hoje
talvez a noite caia com prudência e ensaio
para se celebrar apenas as horas na beira da falésia
imagens sem contradição
o grito das gaivotas desaustinadas 
numa praia apenas entregue ao eco
caminhos brancos para estrelar o ventre
da profundidade que rebenta na areia
essa candura dilacerante de véus
que nos traz os mortos à luz da sombra
espelhos de frente para espelhos vestidos 
de algodão e pó de arroz e manchas escarlate
rodopia o vestido outrora branco e intacto
fiapos de esmalte rabiscando nas margens
palavras que não se ousaram escutar
e de todos os búzios e buracos negros
o silêncio aterrador do teu silêncio
capaz de tornar definitivo o momento
esse pêndulo que se estagnou
não mais pêndulo antes estaca 
e nada mais mensurável ou destacável
que o tempo nada mais tem sabor que mártir
a paisagem desdobra-se para nos ignorar
estendem-se passadeiras de corcéis berrantes
cartas atiradas como baralho desaustinado
ou folhas arrancadas da imobilidade da lombada
figuras vivas aladas afluindo e regurgitando 
peixes rasgam o manto gelado em piruetas 
e acrobacias danças de perigosas espirais
vêm aterrar a meus pés encardidos 
de praia de inverno de lugar de interior
saltam suplicando tontos de asfixia
posso com as mãos levanta-los sentir-lhes a pele
esguia viscosa posso aguardar e olha-los nos olhos
para esse último esgar que dá lugar a olhos vazios
para depois com estes pés nus calca-los na areia
e enterrar a morte como se fosse uma coisa feia
e sacudir-me como um grão de poeira 
desatar a correr como habitante aérea 
cada passo mais largo cada movimento mais lacto
posso explodir-me para desaparecer na ordem
e deixar que fotografem a extensão de cada célula
agora cingida pela rebentação de uma e outra onda
e todas as ondulações que o mar continuará a trazer
sem nós







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