quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Monumento negro

 
quando todos os poemas se acabam
uma fina teia de aranha que se come a si mesma
para cair no seu terrível fosso de astros
estão espectantes lugares vazios 
tochas que oscilam nas paredes antigas
relicário de ventos peregrinos 
e as mãos que lhe tocam que brincam
que desejam no espaço traços aracnídeos
qual maestro de melodias catatónicas
tem uma dor tão profunda quase terna
que mata a lua fora de órbita
e o rosto pálido lhe toma os contornos
minguando-se de contemplação
e plana como um micro passageiro
de uma criatura agora aérea 
piloto de coisa nenhuma oxalá paz
sente um ardor chama a dentro
contração de flor de poente exausto
um sonho em queda livre e entregue
músculo petrificado de veneno lúcido
para depressa ser devorado sem mais pressa
no aparelho vítreo digestivo da mente
e o poema não é mais poema
só palavras desapegadas da engrenagem
raízes que secam ao sol com cheiro de podre
de conteúdo regurgitado das avessas
vocábulos contraídos de muito velhos
com frios fetais de paragem ventral
e as árvores copulando entre si
as folhas enroladas porque livres de palavras
com as nervuras descoladas dos seus tecidos
húmidas num clima boreal camaleónicas
vasculares da loucura além terra
em gemidos de sufoco e violento sangue
o movimento espiral de aceleração sinistra
lhes corta a respiração estonteante 
nesse rodopio de massas difusas o caos
a velocidade de mais força e o aperto
um punho que se cerra as unhas que se cravam
os dedos entrando pela palma no rebentamento
da pele que mais não estica e não contém
os ossos soltam-se das suas articulações
a cartilagem desfaz-se em coisa líquida
transbordam-se também eles pedaços de corpo
no terror de serem atirados ao espaço muito sós
qual estrelas plantadas no céu em silêncio
sem constelação, sem nome, letras, números
estrelas de catálogo de oficina de beira de estrada
manchadas de óleos e pedaços de correntes 
com odor a urina e cigarros mal apagados
oficina de poetas acabados de nascer
de partos de máquinas por remendar
plantados na beira do fim de mundo
nos limiares pós apocalíticos sem profecia
poetas de niilismo de poesia nenhuma
ali entregues na poeira dos baloiços do abandono
de movimentos perpétuos e sem choro









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