domingo, 9 de fevereiro de 2025

Alba a noite

 
Talvez a noite oprima
com o seu ronco de trituradora 
e engrenagem delirante 
Talvez a noite nos caia em cima
cúpula de espartilho branco
e absolutamente quieta, a alma
se vista de gente
cristalina a lua ou porcelana da china
ceptro de encantamento e vagar
e o horizonte amainado no canal
formas fantásticas varridas do firmamento 
sonâmbulos, na beira das alturas
dos beirais tétricos pausando
como farrapos trémulos do mergulho
que partem nos céus para a alvorada 
Andorinhas de cenários desolados
E sentada no tecto do quarto 
suspensão de teias de tédio 
moldam-se linhas de voo além tecto 
Estreita a língua da terra
que enrola e desenrola pantanosos desígnios
semblante de criança 
retrato de choro natural
sede de nuvens rosadas e quentes
e colos áureos 
Começamos pelo embalo
cordeiros de cabeceira combalidos 
havia sinais negros na encosta
braços rígidos como se estivesse morta
e várias milhas de paredes 
templos de neve e sede
Mas o lugar das coisas quietas 
é no poema que sofre em silêncio 
Por isso habitamos em moínhos de vento
ou talvez um farol no espaço sideral

Talvez a noite se vista de coisa fantástica 
no labirinto das coisas que se sonham
no lugar do tecto que seja o ventre 
e a língua se desenrole de caminho
do poema desígnio que se olvidou do início 
porque todo o poema tem o seu suicídio 














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