fios que numa reminiscência de obra quieta
fios de raio de poente e da própria violenta paz
a aranha que balança na memória dos dias
ao acaso da candura do círculo mágico
o virtuosismo da imanência nocturna
na sua própria violação do espaço
de sombras o campo tribal imaginário
oráculos de além teia
na noite que cai das brumas eternas
alquímica de se ver além corpo a aranha
uma alma vaga de passageiro olhar atento
bate-lhe à porta, irrompendo o monólogo
o homem que dorme ao lume
que se estriba na vontade de arder
para o desígnio de entrar
a embriaguez do espaço primordial
o chão uterino de buracos dantescos
o poder oculto que no sulco da alma
lhe causa um arrepio grotesco
bate três vezes gritante o movimento
quatro cabeças, três pernas e uma unha gigante
os outros bichos recolhem ao buraco
o buraco do Diabo quase imperceptível
e o homem de acre lucidez busca de agasalho
se queres entra que eu saio
uma criatura envolta de ligaduras
esguia a língua bifurcada na direção do lume
para lhe tomar as labaredas e as vísceras
senta-se na sua poltrona de mantas de tear
e põe-se a cismar...morreria de frio tísico
elouqueceria de solidão, mudo
e cada pedaço de carne devolveria à terra
o veneno da melancolia definhada
assim a aranha espiava atenta sem tecer ponto
os fios absorvidos na mais ténue petrificação
a sala respirava tímida nas horas lentas
e novamente três pancadas na porta
para o apuro da alma do velho homem
um lobo tremendo cândido
olhos brancos, língua branca arfando
chegas tarde Rahel
mas entra, faz-me companhia
aproxima-te...
repara que não estamos sós, além no canto
Deus crê que é invisível aos nossos olhos
..repara na sua covardia..bastaria um sopro
um comprimento de língua.. frágil, patético
este nem luta deu...entregou-se sem negociar
ao abismo..a noite está fraca, cada vez mais
velhos..mais carrascos de si mesmos
garatujas de vermes outrora homens
a cabana cheirava a resina, pinho e avarento
da janela quedas de neve e algumas estrelas
talvez uma cabana encalhada
num qualquer ponto de antárctico
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