sexta-feira, 9 de maio de 2014

A Paz


numa penumbra doce
asfixiada inquietação
gosto de te ver fumar pela casa
os dias que ficam longe
por detrás dessa janela baça
cosendo espaços
em frascos de vidro
fechados
e no meio de tudo isso
flores que entortam o tempo
nenhuma dor te desperta
dessa segunda natureza
comovente urso polar

uma andorinha trouxe
a maçã polida embrulhada
em pele de chita
entrando dentro de casa
pousou-a sobre a mesa
e retirou-se

-os animais do norte
não conhecem a morte
tal como um peixe
não conhece os cantos
do seu aquário
ou do seu armário?

ajoelhou-se
-espera que me deite
as florestas brancas
estiveram todo o dia
vagarosas
-um dia desço à cidade
só para conhecer a origem
desse veneno escarlate

com um sapato em cada mão
de repente, correr
recuperar a elasticidade perdida
sentir os cabelos vivos
entre a janela e a porta
que se arma lentamente
o movimento de vaivém
jarras de cristal
linces de sentidos

basta estar receptivo







quinta-feira, 8 de maio de 2014


o tempo tem voado tão brusco
cada segundo que passa é menos um
o crepúsculo que se segue e amanhece
jóias que não deixam reserva
imaginários de pudesses ser
tantos seres num só tempo
numa totalidade de misto místico
não aprendemos nada nos livros
é um coração embriagado de mundo
absoluto e franco, sem tamanho
o esforço de arrancar a planta com raiz
de nos mudarmos todos para o planeta
dos velhos, onde só há velhos
um planeta talvez feliz
levo um rosário para fazer de contas
um jarro sem água, uma aguarela de branco
que sou um cão vadio com trela
fiel apenas a uma tirania: 
a vida

posso velejar, trautear avançar
que não falte nunca horizonte
para me deslumbrar

posso tudo isso e ainda voltar
à fonte
e aí repousar o meu olhar
sobre os objectos, as pessoas
que antes me pertenceram
e deixar depois, depois de tudo
as palavras maravilhosas
descansarem também elas enfim
na mãe folha poética
que infinitamente as devolve
à terra

posso
que os limites são tudo farsas
que a mente nos aprende
a sermos pássaros sem asas





Pingo IN


tantas vezes bastava
um gesto, uma palavra
que nunca é dita
um aconchego que não chega
uma ponte caída, fica

por ali
como se fosse natural o ser

e da neblina de um estar pantanoso
emergem apenas figuras estranhas
ramos, corpos nus, ruídos digitais
em solidão esticando cordas vocais

por ali
e da cegueira que lhe é característica
apalpação casuística






terça-feira, 6 de maio de 2014

Só céu


metade para ser uma verdade
a copa de uma árvore siamesa
a continuação de um poema
o outro prato sobre a mesa
íman normal e permanente
o norte e o sul atraente

eletroímã
porque choram as paredes
na casa dos segredos

serão apenas abutres
sanguessugas energéticas
passadeiras da preguiça
portas fechadas de malícia
que a morte os nutre

deixem-nos sonhar porra
se não sois capazes do mesmo
ninguém precisa de paredes
e mentes feitas do medo

infecunda e devasta
hospedeira de uma bolha
telhado de ferro barco de lata
o arraso de uma casa
ao fundo do improfundo
oceano de nada

é essa a outra
metade que aguardas










Mas Deus,
há muito que fui esquecida
não sou mais que folha lisa