domingo, 23 de fevereiro de 2025

Menos 89,9 graus

 
fios que numa reminiscência de obra quieta 
fios de raio de poente e da própria violenta paz

a aranha que balança na memória dos dias
ao acaso da candura do círculo mágico
o virtuosismo da imanência nocturna
na sua própria violação do espaço 
de sombras o campo tribal imaginário 
oráculos de além teia 
na noite que cai das brumas eternas
alquímica de se ver além corpo a aranha
uma alma vaga de passageiro olhar atento

bate-lhe à porta, irrompendo o monólogo 
o homem que dorme ao lume 
que se estriba na vontade de arder
para o desígnio de entrar
a embriaguez do espaço primordial
o chão uterino de buracos dantescos
o poder oculto que no sulco da alma
lhe causa um arrepio grotesco 
bate três vezes gritante o movimento 
quatro cabeças, três pernas e uma unha gigante 
os outros bichos recolhem ao buraco
o buraco do Diabo quase imperceptível 
e o homem de acre lucidez busca de agasalho 
se queres entra que eu saio
uma criatura envolta de ligaduras
esguia a língua bifurcada na direção do lume 
para lhe tomar as labaredas e as vísceras 
senta-se na sua poltrona de mantas de tear
e põe-se a cismar...morreria de frio tísico 
elouqueceria de solidão, mudo
e cada pedaço de carne devolveria à terra 
o veneno da melancolia definhada
assim a aranha espiava atenta sem tecer ponto
os fios absorvidos na mais ténue petrificação 
a sala respirava tímida nas horas lentas 
e novamente três pancadas na porta
para o apuro da alma do velho homem
um lobo tremendo cândido 
olhos brancos, língua branca arfando 
chegas tarde Rahel
mas entra, faz-me companhia 
aproxima-te... 
repara que não estamos sós, além no canto
Deus crê que é invisível aos nossos olhos 
..repara na sua covardia..bastaria um sopro
um comprimento de língua.. frágil, patético 
este nem luta deu...entregou-se sem negociar
ao abismo..a noite está fraca, cada vez mais
velhos..mais carrascos de si mesmos
garatujas de vermes outrora homens

a cabana cheirava a resina, pinho e avarento
da janela quedas de neve e algumas estrelas
talvez uma cabana encalhada 
num qualquer ponto de antárctico 















domingo, 9 de fevereiro de 2025

Alba a noite

 
Talvez a noite oprima
com o seu ronco de trituradora 
e engrenagem delirante 
Talvez a noite nos caia em cima
cúpula de espartilho branco
e absolutamente quieta, a alma
se vista de gente
cristalina a lua ou porcelana da china
ceptro de encantamento e vagar
e o horizonte amainado no canal
formas fantásticas varridas do firmamento 
sonâmbulos, na beira das alturas
dos beirais tétricos pausando
como farrapos trémulos do mergulho
que partem nos céus para a alvorada 
Andorinhas de cenários desolados
E sentada no tecto do quarto 
suspensão de teias de tédio 
moldam-se linhas de voo além tecto 
Estreita a língua da terra
que enrola e desenrola pantanosos desígnios
semblante de criança 
retrato de choro natural
sede de nuvens rosadas e quentes
e colos áureos 
Começamos pelo embalo
cordeiros de cabeceira combalidos 
havia sinais negros na encosta
braços rígidos como se estivesse morta
e várias milhas de paredes 
templos de neve e sede
Mas o lugar das coisas quietas 
é no poema que sofre em silêncio 
Por isso habitamos em moínhos de vento
ou talvez um farol no espaço sideral

Talvez a noite se vista de coisa fantástica 
no labirinto das coisas que se sonham
no lugar do tecto que seja o ventre 
e a língua se desenrole de caminho
do poema desígnio que se olvidou do início 
porque todo o poema tem o seu suicídio 














quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Monumento negro

 
quando todos os poemas se acabam
uma fina teia de aranha que se come a si mesma
para cair no seu terrível fosso de astros
estão espectantes lugares vazios 
tochas que oscilam nas paredes antigas
relicário de ventos peregrinos 
e as mãos que lhe tocam que brincam
que desejam no espaço traços aracnídeos
qual maestro de melodias catatónicas
tem uma dor tão profunda quase terna
que mata a lua fora de órbita
e o rosto pálido lhe toma os contornos
minguando-se de contemplação
e plana como um micro passageiro
de uma criatura agora aérea 
piloto de coisa nenhuma oxalá paz
sente um ardor chama a dentro
contração de flor de poente exausto
um sonho em queda livre e entregue
músculo petrificado de veneno lúcido
para depressa ser devorado sem mais pressa
no aparelho vítreo digestivo da mente
e o poema não é mais poema
só palavras desapegadas da engrenagem
raízes que secam ao sol com cheiro de podre
de conteúdo regurgitado das avessas
vocábulos contraídos de muito velhos
com frios fetais de paragem ventral
e as árvores copulando entre si
as folhas enroladas porque livres de palavras
com as nervuras descoladas dos seus tecidos
húmidas num clima boreal camaleónicas
vasculares da loucura além terra
em gemidos de sufoco e violento sangue
o movimento espiral de aceleração sinistra
lhes corta a respiração estonteante 
nesse rodopio de massas difusas o caos
a velocidade de mais força e o aperto
um punho que se cerra as unhas que se cravam
os dedos entrando pela palma no rebentamento
da pele que mais não estica e não contém
os ossos soltam-se das suas articulações
a cartilagem desfaz-se em coisa líquida
transbordam-se também eles pedaços de corpo
no terror de serem atirados ao espaço muito sós
qual estrelas plantadas no céu em silêncio
sem constelação, sem nome, letras, números
estrelas de catálogo de oficina de beira de estrada
manchadas de óleos e pedaços de correntes 
com odor a urina e cigarros mal apagados
oficina de poetas acabados de nascer
de partos de máquinas por remendar
plantados na beira do fim de mundo
nos limiares pós apocalíticos sem profecia
poetas de niilismo de poesia nenhuma
ali entregues na poeira dos baloiços do abandono
de movimentos perpétuos e sem choro