quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A linha mais ténue




Estava sentado de frente para a janela. Agora a sua cabeça estava leve. Depois de chorar todas as mágoas conseguia ver o fundo do poço que mergulhava a dentro. As paredes viscosas, o odor de águas paradas e sombras. O quarto estava inundado de um tom acastanhado. A luz feita de partículas que pairavam com a suavidade do seu pestanejar. Como o silêncio era agora confortável. 

Foi acordado pelo passar de um vulto, duas pernas andas que atravessavam a sua janela. Levantou-se para lhe acompanhar os passos. Passos lentos e pesados que pisavam as couves abandonadas ao sol. António. Lembrou-se do seu nome. António abriu a boca para espantar esta figura mas dela saíram dois pássaros que num ápice aterraram nos ombros do outro. Maldito, demónio de cata ventos, presos aos pés os vermes que os olhos hão-de comer. E voltou para a cadeira de costas curvadas sentindo de novo os olhos inchar-se-lhe de desgosto. Maria Antónia não havia meio de regressar e o estômago começava a roncar. Se ao menos tivesse deixado café feito. Raios da mulher que não serve para nada. Vadia, bem levado que fui. Minha mãe bem dizia que aquela só para roupa velha. Os restos que a terra há-de comer.
O vulto parou no meio do couval e abriu os seus braços paus de madeira. A camisa de farrapos esticou-se ao vento. Agora outros pássaros partidos de outras bocas vinham aportar nos seus ombros. António observou-lhe o olhar. Inquisidor, baço e fixo no seu. Arrepiou-se e voltou-lhe as costas. E logo sentiu esta presença mais de próximo. Como se a sua respiração falasse ao seu ouvido. Aprontou-se a tentar perceber o balbucio. Amanhã por esta hora ela estará dura e seca deitada sobre a cama. Pegarás nela ao colo como menina que foi e subirás o monte para entregá-la ao precipício de onde todos nascemos. Essa é a tua tarefa de amanhã. E a respiração susteve-se deixando frio no seu lugar. António levou a mão ao ombro, doía-lhe. Uma dor mais fina que muscular. Uma dor de alma que se expandia do epicentro da omoplata. Olhou para a cama ainda enrugada da noite passada. Suspirou. Chegara então a hora de Maria Antónia e a sua? Que ficaria por ali a fazer arrastando-se de chinelos e roupão pela casa? Olhou em volta. O quadro da menina vestida de azul nunca abandonara a expressão de alguém que tristemente espera por alguma coisa. No seu ventre um garrafão de vidro vazio. Aquele olhar era a casa, as paredes, o tecto, as prateleiras de poeira, a porta sempre escancarada de ninguém. Como manda a tradição, António carregou Maria Antónia no dia do casamento desde a ombreira da porta até à cama. Três tristes metros de tábuas já nessa altura gastas e levantadas. Sentou-a na cama e a primeira reclamação apareceu Quase que me deixavas cair homem, que falta de jeito. Bastou uma benção do padre e um sim amiúde que tudo mudara para sempre. A menina que corria os pastos descalça e seminua desaparecera, a menina dos cabelos desgrenhados e piolhosos de jeitos selvagens desaparecera. Nasceu nesse dia Maria Antónia, carrancuda, sempre cheia de dores e arrastos de maldizeres. E os olhos de António encheram-se de lágrimas, poças que se transformaram em poço, poço que se transformou em lençol de água. António sofrendo subterrâneo e perguntando a deus todos os dias pelo sentido das coisas simples da vida, que das complicadas já se sabia serem mistério. Os anos haviam sido emprestados ao nada. Couves, porcos, galinhas, coelhos. E nada. Mas a juventude sim, essa sim, eras uma rica peça também tu meu velho, eras eras. Preocupava-lhe agora a tarefa. A mulher havia engordado quilos e quilos de farinha, as suas pernas fraquejavam e as costas dobradas ao chão mal suportavam o seu próprio peso. Leva-la ao colo a ela mais ao peso da morte, que sempre nos acrescenta algumas gramas, parecia-lhe uma tarefa impossível. Coçou a cabeça procurando ideias. Não podia falhar. Os pedidos dos vultos eram absolutos e a eles falhando o castigo seria aterrador. Para além do seu imaginário de velho das terras do abandono. Leva-la ao colo, mas ele não disse que eu teria se caminhar a pé. A égua. Sim, a égua poderá levar-nos aos dois. Ela ao meu colo, sim ao colo, como disse o vulto, ao colo. 
Ao lado da casa a égua mordia fiapos de palha. António passou-lhe a mão pelo pêlo. Estava velha também ela mas seria capaz de cumprir a subida. Tinha esperança. Assentou-lhe a manta e o arreio e deixou-a pronta com a cabeçada e o freio nos dentes. Esta malandra gostava de correr. Se gostava. Era como eu. E riu-se. Uma gargalhada que espantou a égua e a levantou no ar. Calma bicha, calma contigo que amanhã temos uma longa subida. Agora descansa, isso descansa. Uma última palmada no dorso e saiu para a eira. Olhou em volta. Do outro lado o vulto ainda lá estava espiando-o com uma serenidade que o incomodava. Os demónios são santos na espera. Santos que me ajudem na tarefa. Na tarefa. 
Home onde tás? Ajuda aqui, que inferno, não serve para nada este velho. Maria Antónia chegara trazendo uma cesta cheia de couves. Couves? Mais couves? Mas com tanta couve seca no quintal para que queremos mais couves? Maldita mulher, serás sempre maldita. Maria Antónia pousou a cesta e procurou pela bacia da água para se refrescar do calor que trazia. Pois por isso mesmo, aquelas estão secas, deixaste-as secar porque nem para isso serves, para as apanhar, olha alguma vez, tu levantares-te dessa cadeira. Estas deu-mas a minha irmã. Olha pra isto como são frescas, até brilham. 
Brilham brilham, os venenos do Quim Zé, pois brilham, tu mulher..Depois lembrou-se da tarefa e calou-se. Maria Antónia sempre na retaguarda da resposta para continuar a zaragata estranhou Não dizes nada? Ui tás muito macambúzio hoje, mas que bicho te mordeu? Não digas, deixa lá. Também nunca dizes nada de jeito. Olha ajuda aqui nos talos. 
António não respondeu. Voltou lá para fora a contemplar o dia que se recolhia atrás do monte. A tarefa, se a égua me falha tou tramado. 
Olha lá, não viste se o carteiro veio? António olhou para o vulto e pensou Veio, mas as notícias não te vão agradar. 
Nessa noite jantaram pela primeira vez em silêncio. Maria Antónia que sempre nada lhe escapava pressentia alguma coisa ruim mas não era capaz de perguntar porque isso seria dar parte fraca. Ela havia de descobrir, oh se havia. Foi para a cama com as agulhas e o novelo mas não tricotou senão suposições. Cansada da caminhada acabou por adormecer. António trouxe a cadeira e ficou a velar-lhe o respirar toda a noite. Perguntava-se se o acontecimento se daria durante a madrugada ou se pela tarde. Ninguém morre ao meio dia. Quando o sol acordou Maria Antónia estava morta. Era preciso chamar gente, era preciso preparar-lhe a despedida. Era preciso que todos viessem e todos partissem para que António pudesse cumprir a tarefa longe do olhar dos outros. E foi, vieram as choradeiras e o padre, as vizinhas e a irmã e o Quim Zé. Vieram até as galinhas e o sol começou a dar sinais de despedida. António agradeceu no seu fato de luto encardido e quando finalmente o último virou a esquina do monte aprontou-se a ir buscar a égua. Azar dos azares a égua estava tombada. António ajoelhou-se em desespero. O tempo urgia por uma solução. Ainda se fosse monte abaixo...Correu lá fora como podia e de frente para o vulto tentou gritar-lhe. Da sua boca saíram três pássaros que aos ombros do vulto foram aportar. Voltou para dentro de casa e uma vez mais olhou para Maria Antónia Maldita, até na hora de morreres trazes arrelias. E agora? Que é que eu faço? Tentou levanta-la mas os seus braços fraquejaram. Não podia. Olhou em volta com as mãos na cabeça limpando o suor da testa de nervos. Não há outra solução, nem que eu morra também, esta é a minha tarefa. Só eu posso cumpri-la. E numa nova tentativa conseguiu ergue-la nos seus braços e dar um passo. O peso era tão grande que quando moveu a perna para o segundo passo caíram os dois no chão de tábuas omissas. Foi então que Maria Antónia abriu os olhos e disse muito baixinho Meu amor, cuidado que ainda me deixas cair. António olhou-a nos olhos e começou a ver uma menina, depois uma criança e por fim um bebé. Era como se estivesse a ver toda a vida em retrospectiva desta criatura ainda tombada nos seus braços. Um sentimento de ternura inundou-lhe o corpo. Deitado embalava agora um bebé e sussurrava-lhe uma melodia de embalar. O vulto aproximou-se da janela espreitando. Abanava a sua enorme cabeça, uma bola de panos e palha com dois grandes olhos que sorriam. Aproximou-se do ouvido de António e respirou-lhe Luís. Chamas-te Luís e acabaste de casar com a Maria Luísa. 









segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O verão mais quente do ano



Agente aqui no campo convive-se.

O Padre? Sim o padre. Faz exorcismos. Mas diz que monta-se nelas. O padre? Sim, o padre. Ai valha-nos deus, como isto está. 
As duas velhas iam no banco de trás. Uma tinha problemas na fala, enrolava a língua, a outra era meio surda. Por este motivo a conversa era facilmente audível na carruagem. 
Éramos uma comunidade de 70 pessoas, hoje são sete. Agora é tudo substituído por máquinas. Oh comadre é fresco. Arrastando os pés a D. Mena entra no estabelecimento voltando com um copo de pé minúsculo de vinho tinto. Senta-se ao nosso lado. Levas as mãos ao cabelo grisalho penteando-o para trás das orelhas, suspira aguardando conversa ou outros afazeres. O ar irrespirável bate nos 47 graus. Há anos que não se apanhava um verão assim. No ano passado isto ardeu tudo, eu por causa do meu marido acamado não quis sair daqui, não foi preciso, mas aqui à volta ardeu tudo. Isso foi aí o fim do mundo. O passadiço está desde Março para ser arranjado, desde Março. Uma vergonha estes políticos. 
Os três galos atravessam a esplanada à beira do comboio sintonizados com o sino da terra. 
As casas no meio do mato, deus me livre. São pessoas que gostam dos ares do meio do mato. Depois queixam-se dos fogos. Na província é tudo assim, a senhora sabe muito bem, olhe além, além pela janela, aquela lá mesmo no meio, credo, eu não queria. 
Ema não quis virar-se para trás até que as sentisse a deixarem o comboio. Preferia imaginar-lhes as fisionomias pela voz, pelos tiques das falas. Para confrontar mais tarde com a imagem real das duas velhas no banco de trás. Talvez nem fossem assim tão velhas. 
O comboio seguia para a frente. 
Para a frente de um qualquer espaço físico e cronológico. Estava atrasado dez minutos. Ema fizera esta viagem no verão dos seus sete anos. Com a mãe. A mãe lia, Ema procurava amigos que semana sim semana não chegavam à barragem. As pessoas são curiosas. Ema ainda hoje era muito curiosa. Andava por ali como se não fosse vista. Sentava-se ao lado das pessoas e escutava as suas conversas, observava as piruetas dos rapazes do mato que mergulhavam como se tivessem guelras. Atirava pedras ao charco que invejava a qualquer outro. Entrava e saía do café como se fosse a sua casa e suspirava. Aquele longo verão de solidão.
Comprei oito iogurtes na feira nova, pelo menos aqueles não me azedam no estômago. Ai eu não sou capaz de comer de manhã. Cada um come as vezes que quiser. Pois é. Estamos a chegar ao Entroncamento. É. O marido da minha irmã é um fura-vidas. Aqui está uma máquina antiga da CP em exposição cá fora. São as máquinas que trabalhavam antigamente em carvão. Aqui está o museu da CP, bem isto antigamente era tudo postos de trabalho. Está tudo aos ratos. 
D. Mena aproximo-se de Ema e do seu namorado. O sol era de um branco doentio num céu abafado. Só se escutavam as cigarras. Vocês querem almoçar amanhã? É que eu só funciono com reservas. Aqui nunca houve menu, há dois pratos à escolha. Eu trabalhei sete anos na Alemanha num restaurante de categoria, sei bem como funcionam. Aqui não funciona assim, tou aqui à quarenta ianos. Sou o terceiro melhor restaurante do país de lampreia. Ema arrepiou-se. Lampreia aquele bicho cobra que tanto lhe fazia impressão. Um dia o pai levara-a a almoçar fora na terra dos primos. Para a menina provar a iguaria. Ema vomitou no prato e os almoços ficaram por aí. O pai partiu para França e dele foi tendo notícias de se estar a dar bem na carpintaria. Casou duas outras vezes e dos irmãos Ema só sabe do seu nome. Eu cá não gosto de cinema, a vida já é um grande filme. Se eu contasse todas as peripécias que eu e o meu marido passamos lá na Alemanha. As pessoas perguntam ah como é que conseguem viver aqui isolados do mundo. Sem as comodidades da cidade. Eu bem vi lá na Alemanha como é que era. As pessoas sempre para trás e para a frente para apanharem os autocarros. Um horror, isso não é viver. A nossa vida dava um filme ah pois dava. Aqui tenho tudo, o meu marido lá em cima acamado, meto-lhe o ar condicionado a 25 graus, mas aqui ontem não se podia estar, 47 graus dava a temperatura ali da televisão. 
O cheiro a pés não lavados continuava no comboio. Não sabia se eram das suas próprias sandálias ou se das velhas do banco de trás. Talvez não fosse dos pés, se calhar elas traziam um cesto com queijos. O tempo começava a ficar mais cinzento à medida que o comboio avançava. 
Olha o túnel, já passei isto tudo a pé com uma rapariga que hoje já lá está coitadita. Esta estrada vai para, agora não me lembra o nome, Santa Margarida é isso. Não sei ele vai parar. Aqui é a ponte. Olha a casa da minha sogra além, daqui consegue-se ver. Ema deixou de ouvir a outra velha, talvez estivesse a dormir. A paisagem complicava-se de um verde emanharado de pântanos e montes que se cobriam de solidão. Poucas eram as casas que se avistavam da janela do comboio e quase todas elas partes de ruínas. Curioso. Esta tinha tantas caixas de correio, já viste? Sim, se calhar passava aqui e as pessoas depois vinham cá buscar. Ele não podia ir a todos os montes. 
Vai dormir? Vá vá. Feche os olhos e descanse. Não faz diferença. Tá a ver olhe aquela casa, depois queixam-se dos fogos. 
O comboio pára. As pessoas saem outras entram. Das janelas os que estão a bordo observam os outros na estação. As pessoas olham-se muito pensava Ema. Procuram nos outros sabe-se lá o quê. Distracção para o tédio de dentro talvez. 
Doce o meu fato de banho? Ah sim estava em cima da cadeira, eu guardei, devo ter guardado. Agora também é tarde e regressa ao livro. Estava lento, denso e aborrecido, como a viagem quando as velhas se calavam. Parecia que o dia estava a cair para a noite mas não era ainda nem meio dia. Se calhar vamos apanhar mau tempo. Não, então não viste nas notícias que estavam lá 47 graus ontem. Ah sim pois foi mas olha o céu, está escuro. Se calhar é trovoada. 
Olhe lá já viu este tempo como anda. Então ontem aquele calor tórrido e hoje parece que vai de trovada. Sta Bárbara bendita que no céu estais descrita. Ai cale-se lá com essa ladaínha mulher, com esta idade e ainda com medo dos trovões. Pois pois, eu é que sei como é que é lá no meio dos montes, depois queixam-se. Olhe lá, pensava que estava a dormir. Também eu. Tudo casas velhas já. É como a gente. Agente havia de ter ido era ao jardim zoológico. Ai as cobras credo. Pois está com medo que elas metam a língua de fora não é? Havia lá uma no quintal, lá onde tínhamos as garrafas de gás. É que elas apanham tudo. Viva. Atão ela metia-se dentro da minha barraca, mas eu meti lá um bocado de remédio e ela desapareceu. Ao fundo do quintal aquilo tá lá tudo, havia de ser limpo. Em frente lá do barracão do Mendes aquilo andaram lá tudo a limpar até é de admirar. Até ao passeio. Aquilo é tudo meu. 
Porque razão as coisas grandes não eram próprias de uma dama dizia o livro. Explicava que as mulheres serviam para inspirar os outros a realizarem coisas grandes, não para as fazerem. O livro retratava 1900. Tinham escrito poemas para retratar esse ponto. A culpa era atribuída a demasiado Beethoven. Para esta mulher, voar fora das normas da sociedade era um acto de respiração. Ema pensou que não ia ser capaz de terminar o livro. Era para além de mais que aborrecido. E arrependia-se agora de o ter trazido para estas férias. Os outros dois, algum haveria de ser mais interessante. Guardou o livro na mala. Estavam quase a chegar, dez minutos atrasado. Arrumou as suas coisas e levantou-se para apanhar as malas em cima dos bancos. Contemplou finalmente as duas velhas. Anda, que estás a fazer, olha que ainda ficamos aqui. Sim, vou, espera estou a ir. Finalmente podia agora dar forma e cor e textura aos seus ouvidos. Tinham as duas óculos. Eram velhas. Pele queimada do sol. Enrugadas. As mãos viajando sobre o peito perto da cruz. 

Imaginei que regressava ao verão da minha infância. Falei-te nisso e agora estás aqui. A minha infância não foi igual a qualquer outra. Tantas foram as vezes que pensei em enviar um postal com as paisagens da minha infância. Não havia a quem o enviar. Só tinha a minha mãe. E a caravana e mais tarde um cão chamado Farrusco que a minha mãe me obrigou a abandonar porque eu não cuidava dele. Nunca soube cuidar de ninguém porque ninguém cuidou de mim. A minha mãe lia. Parava para dormir ou ir à casa de banho. Recordo-me certa vez que nem para isso parou e foi mesmo pelo caminho que fez pernas abaixo. Ela lia porque dizia que a vida não tinha interesse nenhum. Creio e sei-o hoje que a culpa foi do meu pai. A culpa é sempre dos homens. Quando ele partiu ela enlouqueceu. Se calhar já era louca antes, não sei, antes parece que ficou tudo em branco. Nada me lembro para trás da partida do meu pai para França. A bem dizer daí para a frente só mudava a paisagem. Do lado de dentro daquela caravana era tudo igual a si mesmo ou igual a nada. Numa das nossas intermináveis viagens ou durante essa longa viagem que foi a minha infância a minha mãe parou neste mesmo local e eu tomei banho pela primeira vez num rio. Antes era sempre o mar. A fixação pelo azul, essa paisagem cansativa e excessivamente luminosa. Por isso o rio foi amor à primeira vista. Eu tinha sete anos. Acabámos por ficar aqui um mês. Foi o mês mais estável de sempre. Numa dessas tardes de banhos e cigarras a minha mãe olhou para mim e também pela primeira vez olhou-me. Os olhos dela transmitiam pena de mim. Li-lhe por dentro que sentia a minha solidão. 
A nossa vida dava um filme, oh se dava. É por isso que não gosto de cinema.





quarta-feira, 25 de julho de 2018

cartas lançadas em garrafas de plástico


e ali estávamos sentados
paralizados de uma qualquer acção titânica
os olhos postos no horizonte oceânico
espiando nas nossas mãos estrelas
vigas torcidas espirais de vagas inacessíveis
depois o tempo uma fornalha para mastigar
a anomalia gravítica com que que estamos
atravessar dos destroços uma parede penhasco
que escorre lava de feridas incessantes
ondas de consternação batem aos pés
escutam-se guizos no mergulhar em pilotagem automática
carreiros aéreos de um vigilante que abraça só recordação
e das paredes cavernas iluminadas de laranjas
a terra negra sombria e fria
nas asas dísticos aros de aço para voos a pique
cerrar os punhos atrás das costas e ocultar a desordem perpétua
há nas artérias uma tirania para o trânsito marginal da mente
as ligações vitais caldeiras e ferramentas para a corrente
que nos afasta como navio da costa
o pano de fundo do mundo caído
os pés fora de água, dessa muralha obsessa
para residir nos objectos que nos persistem
um calor tropical de chuvas ácidas
ficam no corpo vestígios que não recordamos
resolvido no espírito o cumprimento solene de um homem cego
que implora por vida nessa caixa de pandora
essas brancas falésias que nos espreitam da ranhura
dou-te a mão confesso que continuo a sonhar com vagas de ondas
e nós a correr numa praia qualquer
numa fuga torturante em vão
que as pernas na areia se atrasam se cansam
a minha obra tornou-me inquieta de instante
mas antes dela não me lembro de ser alguém
tu dizes que o sol desapareceu e que a noite aconteceu
que posso adormecer nesse peito
pelo preço da humanidade inteira
no olhar tranquilo do reflexo da lua sobre as águas
que depois da devastação estão paradas
junto à costa moram próximos os ruídos dos passos
dos nossos corpos

segunda-feira, 23 de julho de 2018

para os mortos


quando das paredes descolarem pássaros

beberás da medula do fantástico
para o cadafalso de um outro céu
nossos braços levitarão juntos
como organismos de transparência
pétalas deixadas ao sopro seguro
e o tempo desvanecido circular
o caminho à beira do abismo
e nossos eternos sorrisos
e o sangue sedento anacrónico
do alto do cume do batimento
o pensamento escalado para sonho
o corpo contemplando a flecha
veloz selvagem magnífica
nosso porto de impressões e rochedos
de irregularidade e elementos ruínas
sermos fumo e passagem vento
para o cuidado do embalo da terra

depois as nascentes jorrarão de lágrimas
das encostas aos túmulos dos vales
os ciclos torturados de sombrios precipícios
e imagens de sacrifício em fogueiras
a melancolia toldará por fim
à contemplação da natureza em fúria
para nos escravizar no vício da dor
o amor vagabundo deambulante dos dias
ondulações de um oceano inquieto
abrirem-se fendas acima das nuvens
e dos braços se arrancarem as veias
e com elas erguerem-se altares de forca

as raízes ainda libertando terra de arrasto
como pássaro que está a aprender a voar
colonizar na sinistra hora do pôr do sol
a substância fria dos olhos de pedra
um cântaro em equilíbrio uma casa páteo
o mar em fogo para árias de insanidade
e cabelos prateados enrolados em castiçais
três luas reflectindo na neve negra
flores que murcham deixadas numa mala
e o ritmo profundo dos pés que pisam
uma cidade alada por onde vagueamos

agora repousam nos objectos as memórias
e o corpo dança na vertigem das horas
e com razão incerta a voz cala-se na minha boca

mas quando das paredes descolarem pássaros
tudo voltará ao seu lugar
e eu posso por fim descansar


quarta-feira, 18 de julho de 2018

vernáculos corpus



o pássaro que não sabia planar
acompanha o barco sem se cansar
se parar mergulha a pique
na água gelatinosa de cristais
um mapa de afluentes convertem-no
para o talhar dos telhados
expatriado da articulação lírica
o pássaro de braços de ferro
carimbando o voo de todas as horas
com a doçura angustiada da gradação
assenta patas no pontal da solidão
onde se contemplam os azuis e se pede a paz
organismo aprisionado na paisagem
essa imagem que nos esgota
- a primeira morada do silêncio é a boca
nessa erótica equação do ouvido
liames de ampolas de emergência
a barca do desamparo atraca ao lado
para a malha que nos cobre a pele
os densos estados da alma
demossilábicos no labirinto das imprecisões
deito-me na pedra do cais estendido à luz
decadente, fétido, o poeta de costas fragmentado
uma cidade emergida da neblina
na agulha da pressão do contador das horas
batalhas no espaço sem fôlego de andróides
holocaustos em cada compartimento da nave
um planeta morto ainda intermitente
gente que pede paz para a gente
tudo é tão estranho e absoluto
um monocarril de um gatilho qualquer
que alguém premiu antes de nascermos
uma mão cheia de tecidos
morre no controle da palpitação que se esfuma
uma atmosfera irrespirável do grande suspiro marginal
jaziam macieiras de fúria negra
quando fecho os olhos à infância
uma náusea interior revolta-me as entranhas
a porção de cabo e parede de fim de mundo
antagonizo-me na compulsão
um lago de hidrogénio ou um ateu romântico
cidades subterrâneas desoladas ou um aquário fantástico
aporto-me no núcleo rígido das sensações
e o desejo insano de ser toupeira
as amarras do tanque a morte da íris
e se acabe o eterno inverno deste mundo suspenso

segunda-feira, 16 de julho de 2018

"ela dança num anel de fogo"


assim foram transformados em feixes de luz
e na telepatia da noite choram-se

apanho os ecos vindos da alma que atirei ao espaço
dos venenos contidos dentro das garrafas

o meu desespero emergente do grito mais grave
atracado nas mandíbulas do nevoeiro mental

retiro-me dos meus braços para te deixar só
para a hipnose sublime da vida arbítrea
os olhos parecem vazios porque na verdade estão
por continuarem abertos os lábios movem-se
aos poucos linha a linha o corpo sossega
para se concentrar numa sonda profunda
uma sonda-relâmpago que ilumina no escuro

não sei quantas vezes enterraste os mortos
e a mim continuas a matar com teus versos
e eu recolho-me para uma posição fetal
contorcida de sintomas de alheamento
porque parti o meu coração para te dar vida
vida que agora não encontro em mim

a tinta que vai secando no odor amorfo
da janela abriu as cortinas e contemplou-se ao espelho
um homem nu e ainda demasiado jovem
trespassado de fantasmas frios e feridas que não cessam

o meu coração de vez em quando pára
paralisado pelo choque de tanto sentir

e é neste diálogo que não haverá silêncios
nessa aparelhagem estereofónica de dor

porque dentro de mim uivam lobos
e uma viagem astral de fomes incessantes

assim como me parto em versos espaçados de tempo
tempo que sinto sôfrego e pouco
e tudo sai de dentro num atropelo de vago e colateral

de querer tanto a vida às vezes me empresto à morte
por isso avanço na destruição e abraço o caos

tenho tanta fome que era capaz de comer o meu próprio coração

a poesia é uma instituição para crianças paranormais
pateticamente deixadas no abandono entre os mortais

e dessas estupendas rosas que toda a gente traz na lapela
sangram pessoas de verdade

e depois erguem-se muros de pão e leite e carnes frias
que nos mordem a mente e o corpo de desgaste físico

e a paisagem primitiva de mistério
onde dormias distraída
mamíferos sanguináreos
amortizados por whisky
e ressacas de extraordinário




sexta-feira, 13 de julho de 2018

o último voo



a trepadeira sobe pela coluna de ar quente
enrolando-se reptilmente de pescoço extensão
os braços as mãos que puxam a corda ao sol
para desaparecer por detrás dos montes de branco
no  instante seguinte o jazigo da solidão
os dias da cólera um odor desvanecido
pendular o corpo jangada sobre o mar
espasmos de luz de línguas mortas
hidra nas suas urnas suspensas de vida
as partes pesadas deixadas à terra
para o transplante cíclico dos tempos
depois invocar-se de fantasmas doidos
para o retroceder da loucura
mais a dentro mais negro mais ordália
o arrasto da distorção das cordas
para o integrar das imagens ainda vivas
um helicóptero pousado na palma da mão
o resmar do papel lençol flutuante
nas grandes trevas onde não se teme a nada
controlar a visão ondulação
os contornos insolúveis da actividade neural
os monitores acusando a geleia imersa do pensamento
a inconsciência a inconsistência
quadros de parede agora de cotão no convés
o olho imóvel de novos poderes
um tanque de nutrientes de massa e matéria e electrodos
os tecidos deteriorados dos processos passados
crianças suspensas anímicas
a zero desprovidos de engenharia planetária
e guerras marcianas de bancos de rostos
tudo terá outro nome de baptismo
antes do holocausto da contracção da dor
cabelos brancos velhos longos secos
antigas civilizações de um papel sedoso e passivo
o último suspiro magnético
para um último acto de mutação sem talismãs
depois as mesmas horas as mesmas estrelas
só o metabolismo poético empírico subterrâneo
o refúgio entre desertos de rocha e afecto
a nave um espaço interior de contemplação
original do êxodo dos primeiros poetas
à beira de um abismo vocábulo
as palavras cuspidas de torpedo e castigo
no absoluto fanatismo expiado
subi a escada de vidro de casaco completo
todo o clic ponta de fio cortina imensa
a terra num barulho irritante de encravado
o movimento parado simulando vida
assinados os contratos de apólices caducadas
lá em baixo rostos familiares presos ao chão
uma mulher grita na escuridão que fica
o grito voa e trepa pela coluna vertebral
o corpo ferve impedido de gesticular pânico
quero saltar porque não sei o que me espera
saltar de uma janela mas todas têm grades de flanela
o vazio é uma trepadeira trancada de retorno
e o corpo uma nuvem almofada adesivo mordido
os ossos despedaçando-se como folhas arrancadas
um corpo gancho que leva atrelado a uma lâmpada
o meu grito junta-se ao outro um buraco que cresce
como se fosse um pássaro morto que engoliu a língua
ou uma alma deixada ao sol em salmoura
num qualquer ponto do universo à deriva