domingo, 7 de dezembro de 2025

Ite, missa est

 Das brigadas do tecido azul
cósmicos os tons ondeados da íris 
quebram-se de rasgos águas ferventes
nós dos dedos sacros cobertos de terra
Havia geada nos corações dos homens 
bicicletas caídas nas beiras de estrada 
peluches atirados do telhado e das fendas
figuras muito negras 

Sentaram-se no colo do sol de inverno 
de olhos fixos fulminantes no absurdo 
pela culatra do mundo 

o segredo nuclear habitava o negro dos olhos
na pele macia dos mortos
andava de cabeça para baixo 
cabelo descaído sobre o rosto
musgo debaixo da língua áspera 
e pequenas figuras alojadas na dentição felina
A mulher ergue a cabeça mãe, pescoço caule 
enrolada como erva má 
longe de ser vazio enredos e refúgio de horrores
Brilha no crepúsculo pétalas de rosa em coro
desconectadas as seivas são saliva seca
ergue-te oh insana cabeça de víbora 
da mundana canseira da labuta

Cada dedo bifurcava em atómicos cachos
cada dia prolongava em atómica hora
e os veios inchados de tanta pujança 
para punhados de vida em boa aventurança 
-tenho vivido em pleno toda minha temporalidade 
As palavras enrolam-se-me na pulsação dormente 
dos dias, dizia que nem todos eram habitados na cúpula dos deuses
havia quartos intermediários uns de recobro outros de dor e muitos mesmo de sonhos por definir 
as figuras de pedra estacionavam na panorâmica 
terraço de graus rotativos que rangiam 
como de noite no céu da boca em frescos 
e a fundo negro o céu do amanhecer sem querer
às tantas zumbidos e arranhões de garotos
a pele no fio lâmina para fatiados de amanhã 
Alguns vivem sem apetite, como isso é formidável 
são planadores sem catástrofe, em pura calma 
outros estagnadas lâmpadas de tecto, cegantes
gosto das ventoinhas de tecto, pêndulos horizontais 
hipnotizantes de ritmo furtivo
lembra quando entravas na roda ou no elástico 
hélice espiral vibrante e depois sair com mestria 
pousar de novo o pé no chão com convicção 
hirto, verticalmente existo


Este terminou, outros virão. 

domingo, 2 de novembro de 2025

A sedimentação do caos

 Em nós habitantes do verbo
compostos cuidadosamente no musgo 
na lágrima da teia, na castanha caída 
vago e materializado alheio de constelação 
construção de aberração e abismos brutos
trágico de brumas violeta fúnebres 
penalidade da paisagem faústica
arquétipos do combate violento da manhã imensa
amor esse ritual de oráculo inválido 
o pathos indecifrável que depois nos arde por dentro
tudo terá o peso do passado estóico 
uma tendência impurgável do estuário da mente
tudo é beira de máquina registadora 
Fio de lâmpada pendurado no tecto
Tecto céu que arde em lume brando 
estéril nu monólogo que trazíamos interplanetário 
sobrevoa a tudo isto comigo
sobrevoa em sobre voo tu e eu

Quando fotografei o rosto tinha o sulco do tempo
uma infância em rosto de velho, sorriso eterno

Talvez fosse sulco de sangue
acidente que se explica na violência 
quando se nasce no avesso, lado feio 

Estava lucidez, nunca estive tão plena e limpa
E da região báltica do meu coração serena

Havia um eco guarnecido de uma luz verde intensa
cor de verde atómico gâmico
Talvez uma cor de silêncio ensurdecedor 
de couraça de dureza que na surdina da madrugada 
nos pesa no seco, da boca se calhar do vácuo 

Às vezes a besta parece-me tão longe
que o ódio agora só me artificial 
Somente só.. nunca mais sentiria
A quimera acorda aqui a teu lado 
Finalmente em paz. 

Recordo-me de tudo desde o inicio
Sestas do feno, mascando o sonho do amanhã 
No Alentejo o amanhã parece sempre tão longe
as noites de varanda escaldantes, o apetite voraz
tudo para viver nada onde o metafísico é insano 
Fumos, noites infinito Céu do mais pálido riacho
tudo campos medonhos de silêncio 
Havia sempre silêncio na minha casa 
E as paredes contraiam-se-me de impaciência 
de horrores fictícios de outros nomes
parecer de uma pós guerra de si mesma 
Agora que regressas a um lugar que já não existe 
era um lugar com futuro 
e a paisagens foi revoluta, provocou a morte 
e com toda a sua sorte, aqui persiste 
em fiapos de memória 

Talvez tenha tido tantas pequenas mortes 
e os remendos de tear de lonas de aço 
Armadura mas sem amargo trago, destreza felina 
Dentadura canina, veneno reptílio e sobretudo 
Fibra da mais alta qualidade onírica 


Bravos, bravos terão de ser os próximos 
Porque agora em consciência 
cada aurora bate dentro do pano
E de cada vez que sobre o pano
sequestrado pelos sete cantos do universo 
Eu sei, estou vivo, sou eu o próximo verso e 
declaro o poema infinito ginástica espiritual 
pelo luto do primeiro momento 


Grande força tem a palavra
fala de quedas de neve ou de febres de guerra
fala da grande alegria e da universal agonia 
fala de todos mas rigorosamente todos
passarmos pela mesma linha
Gosto do olhar ternurento da despedida...

E da lágrima caída 
que diz, terminei, continua TU
















domingo, 28 de setembro de 2025

Cabeças Falantes

Dedadas a óleo e um âmbar de candeia
Obscura verde pantanoso uma janela fria
para inúmeros retratos que trepam a obra
um banco tremolo onde crianças trampolins 
se deslocam do sonho para a prova em gelatina
e sais de prata...
do Retrato ecoam esgares de gansos de gesso 
que ao canto do espelho se observam do avesso
criação de viagem no tempo
arquitecturas de memória temporária, caducas
Os cabelos enrolam e baloiços brincos de 
mais do que humanos, reconfigurados de molduras e recantos de roubos
molestantes da mente 
Às vezes respirar só à deriva
cânones de ânsias e formas inéditas de reentrâncias 
para juntar as peças e peso, de estarmos coeso
Reduzidos ao mínimo mistério 
proposta de visita em directo diálogo.

A minha mente tinha rampas
processos elevatórios junto á beira
Estamos sempre a um passo do depois..
tão frágil passo que pisando a fina camada de gelo
 passo 1 - sou feito de penas;
 passo 2 - caio à terra feito de ferro;
A pintura reduz-me á tela, não queria a musa
nem a lágrima da viúva 
O curral.. furacão..o vitral.. dilúvio e projecção 
Tinham crescido dentro de cubos, eram cubos
Experimento de mundos mudos, surdos.. obscuros 
E para espiar da aresta, o pescoço curvado 
Corpo manipulado cheio de ransos rarefeitos
olheiras até ao peito e cabelos colados de sebo
o lugar do extremo que agora ocupa vagos
Somos todos produtos de vácuos 
Néon para indicar a culatra da gente 
E alvéolos de sonho..pranchas de desenho indivisível 
Nasce sim uma figura de pé 
Da aparente disrupção narrativa 
Busto incompleto do mundo
Tal crânio vazio exposto no espelho
Polychromio sem alma, por isso sem desejo

Esfoladas ninfas
impressão tatuada de rasgos pedaços 
desenhos de lápis em papel marfim
página de álbum de catálogo de horrores 
corpo esculpido de fim de tempo
Corpo tombado em repouso
talvez quebrado no espaldar da cama
ou arrancado à infância 

Qualquer objeto podermos ser nós 
Qualquer nós em qualquer momento 
suspenso no tempo 

A sombra fica, projector de chão 
fica colada na parede da fita
Familiares...fases de corpos cem valas 
A moldura da execução do fim
Apropriada a campa céu vertical 
Porque se morre de pé 

Como uma onda parede tsunami 
Pancada 










sábado, 1 de março de 2025

Pagad

 
andam os pássaros desarvorados 
tontos no céu 
en piruetas habilidosas de asas
acidentes de ninho 
estão os céus cor de rosa
no mistério da unidade etérea 
elemento ar e desapegamento de terra
o meu peito também é desarvorado
pentagrama para baixo e substância imaterial 
tem o seu próprio mapa sideral
A noite cai húmida pela cintura 
busca por ocasos profanados
a noite escura transgressora liberta
e a lua de trono coroa com orbes
candeeiro de templo portal de alma
á espera da colheita final
havia o tempo de ser criança 
do entendimento primário e contra baloiço 
de correr livre de roupa e balança 
físico, meta sereno e empírico 
ornamentos de jardim simbólico 
com cabeça de esfinge, carros de triunfo 
e leões negros de peluche
esses foram os pilares do meu tempo
função hermética de cabeceira de vento
e moínhos no cimo do monte
o tempo das garrafas de ar
dançantes 
cristais de azul lápis e tela virgem
e cavalos de pau fixos no sótão 
esses são os páteos da minha cabeça 
da loucura atual instante 
o lugar da fantasia a dentro 
imagens que agora são âncora 
cabeça de chacal e força 
talvez demasiado centrípeta 
era uma noite forte e escura, ermita 
encarnada do cativeiro do corpo 
e cavalgava abrupta
para o culto do meu esqueleto 
o meu corpo sangra agora
na criação de horas mutantes
sementes que depositei no horizonte 
para envelhecer no alpendre 
e ao meu lado senta-se a criança 
que sabia de cor o alfabeto 
que somava e subtraía
as dores em peças de lego
sentam-se finalmente serenas 
depois de tantas trevas
as duas em silêncio, meditando 
e no silêncio absoluto desse alpendre 
enquanto o sol nasce do seu horizonte 
tocam-se como placas tectónicas 
promovendo o milagre sísmico poético
A poesia é um grande abanão 
chora, grita, bate no chão, vibra
e significa.. estar Viva



domingo, 23 de fevereiro de 2025

Menos 89,9 graus

 
fios que numa reminiscência de obra quieta 
fios de raio de poente e da própria violenta paz

a aranha que balança na memória dos dias
ao acaso da candura do círculo mágico
o virtuosismo da imanência nocturna
na sua própria violação do espaço 
de sombras o campo tribal imaginário 
oráculos de além teia 
na noite que cai das brumas eternas
alquímica de se ver além corpo a aranha
uma alma vaga de passageiro olhar atento

bate-lhe à porta, irrompendo o monólogo 
o homem que dorme ao lume 
que se estriba na vontade de arder
para o desígnio de entrar
a embriaguez do espaço primordial
o chão uterino de buracos dantescos
o poder oculto que no sulco da alma
lhe causa um arrepio grotesco 
bate três vezes gritante o movimento 
quatro cabeças, três pernas e uma unha gigante 
os outros bichos recolhem ao buraco
o buraco do Diabo quase imperceptível 
e o homem de acre lucidez busca de agasalho 
se queres entra que eu saio
uma criatura envolta de ligaduras
esguia a língua bifurcada na direção do lume 
para lhe tomar as labaredas e as vísceras 
senta-se na sua poltrona de mantas de tear
e põe-se a cismar...morreria de frio tísico 
elouqueceria de solidão, mudo
e cada pedaço de carne devolveria à terra 
o veneno da melancolia definhada
assim a aranha espiava atenta sem tecer ponto
os fios absorvidos na mais ténue petrificação 
a sala respirava tímida nas horas lentas 
e novamente três pancadas na porta
para o apuro da alma do velho homem
um lobo tremendo cândido 
olhos brancos, língua branca arfando 
chegas tarde Rahel
mas entra, faz-me companhia 
aproxima-te... 
repara que não estamos sós, além no canto
Deus crê que é invisível aos nossos olhos 
..repara na sua covardia..bastaria um sopro
um comprimento de língua.. frágil, patético 
este nem luta deu...entregou-se sem negociar
ao abismo..a noite está fraca, cada vez mais
velhos..mais carrascos de si mesmos
garatujas de vermes outrora homens

a cabana cheirava a resina, pinho e avarento
da janela quedas de neve e algumas estrelas
talvez uma cabana encalhada 
num qualquer ponto de antárctico 















domingo, 9 de fevereiro de 2025

Alba a noite

 
Talvez a noite oprima
com o seu ronco de trituradora 
e engrenagem delirante 
Talvez a noite nos caia em cima
cúpula de espartilho branco
e absolutamente quieta, a alma
se vista de gente
cristalina a lua ou porcelana da china
ceptro de encantamento e vagar
e o horizonte amainado no canal
formas fantásticas varridas do firmamento 
sonâmbulos, na beira das alturas
dos beirais tétricos pausando
como farrapos trémulos do mergulho
que partem nos céus para a alvorada 
Andorinhas de cenários desolados
E sentada no tecto do quarto 
suspensão de teias de tédio 
moldam-se linhas de voo além tecto 
Estreita a língua da terra
que enrola e desenrola pantanosos desígnios
semblante de criança 
retrato de choro natural
sede de nuvens rosadas e quentes
e colos áureos 
Começamos pelo embalo
cordeiros de cabeceira combalidos 
havia sinais negros na encosta
braços rígidos como se estivesse morta
e várias milhas de paredes 
templos de neve e sede
Mas o lugar das coisas quietas 
é no poema que sofre em silêncio 
Por isso habitamos em moínhos de vento
ou talvez um farol no espaço sideral

Talvez a noite se vista de coisa fantástica 
no labirinto das coisas que se sonham
no lugar do tecto que seja o ventre 
e a língua se desenrole de caminho
do poema desígnio que se olvidou do início 
porque todo o poema tem o seu suicídio 














quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Monumento negro

 
quando todos os poemas se acabam
uma fina teia de aranha que se come a si mesma
para cair no seu terrível fosso de astros
estão espectantes lugares vazios 
tochas que oscilam nas paredes antigas
relicário de ventos peregrinos 
e as mãos que lhe tocam que brincam
que desejam no espaço traços aracnídeos
qual maestro de melodias catatónicas
tem uma dor tão profunda quase terna
que mata a lua fora de órbita
e o rosto pálido lhe toma os contornos
minguando-se de contemplação
e plana como um micro passageiro
de uma criatura agora aérea 
piloto de coisa nenhuma oxalá paz
sente um ardor chama a dentro
contração de flor de poente exausto
um sonho em queda livre e entregue
músculo petrificado de veneno lúcido
para depressa ser devorado sem mais pressa
no aparelho vítreo digestivo da mente
e o poema não é mais poema
só palavras desapegadas da engrenagem
raízes que secam ao sol com cheiro de podre
de conteúdo regurgitado das avessas
vocábulos contraídos de muito velhos
com frios fetais de paragem ventral
e as árvores copulando entre si
as folhas enroladas porque livres de palavras
com as nervuras descoladas dos seus tecidos
húmidas num clima boreal camaleónicas
vasculares da loucura além terra
em gemidos de sufoco e violento sangue
o movimento espiral de aceleração sinistra
lhes corta a respiração estonteante 
nesse rodopio de massas difusas o caos
a velocidade de mais força e o aperto
um punho que se cerra as unhas que se cravam
os dedos entrando pela palma no rebentamento
da pele que mais não estica e não contém
os ossos soltam-se das suas articulações
a cartilagem desfaz-se em coisa líquida
transbordam-se também eles pedaços de corpo
no terror de serem atirados ao espaço muito sós
qual estrelas plantadas no céu em silêncio
sem constelação, sem nome, letras, números
estrelas de catálogo de oficina de beira de estrada
manchadas de óleos e pedaços de correntes 
com odor a urina e cigarros mal apagados
oficina de poetas acabados de nascer
de partos de máquinas por remendar
plantados na beira do fim de mundo
nos limiares pós apocalíticos sem profecia
poetas de niilismo de poesia nenhuma
ali entregues na poeira dos baloiços do abandono
de movimentos perpétuos e sem choro









sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

de esmalte azul

 
como uma obra completa mais um conjuro
a forma do corpo homogéneo petrificado
o movimento constante já expelido do agir
para a consequência perpétua do alimento
do corpo sem voz ou da pele sem carne 
do pálido antes opulento embalo de vento
partida para uma qualquer ilha batida de sol
onde cada árvore se aninha no céu inexorável
as aves trazem mensagens nas suas asas 
paira sobre a ilusão uma realidade semi dura
mental e emotiva pulsante de pinceladas
cremos que cada significado tem o seu lugar
sobre os promontórios da alma
a seiva da memória ceifando drástica 
um quadro onde tudo se vai desmoronando
na sua roda trincada embalsamando o animal
ainda vivo, derrotado de insondável imaginário
tinha-me habituado ao estado onírico e hoje
talvez a noite caia com prudência e ensaio
para se celebrar apenas as horas na beira da falésia
imagens sem contradição
o grito das gaivotas desaustinadas 
numa praia apenas entregue ao eco
caminhos brancos para estrelar o ventre
da profundidade que rebenta na areia
essa candura dilacerante de véus
que nos traz os mortos à luz da sombra
espelhos de frente para espelhos vestidos 
de algodão e pó de arroz e manchas escarlate
rodopia o vestido outrora branco e intacto
fiapos de esmalte rabiscando nas margens
palavras que não se ousaram escutar
e de todos os búzios e buracos negros
o silêncio aterrador do teu silêncio
capaz de tornar definitivo o momento
esse pêndulo que se estagnou
não mais pêndulo antes estaca 
e nada mais mensurável ou destacável
que o tempo nada mais tem sabor que mártir
a paisagem desdobra-se para nos ignorar
estendem-se passadeiras de corcéis berrantes
cartas atiradas como baralho desaustinado
ou folhas arrancadas da imobilidade da lombada
figuras vivas aladas afluindo e regurgitando 
peixes rasgam o manto gelado em piruetas 
e acrobacias danças de perigosas espirais
vêm aterrar a meus pés encardidos 
de praia de inverno de lugar de interior
saltam suplicando tontos de asfixia
posso com as mãos levanta-los sentir-lhes a pele
esguia viscosa posso aguardar e olha-los nos olhos
para esse último esgar que dá lugar a olhos vazios
para depois com estes pés nus calca-los na areia
e enterrar a morte como se fosse uma coisa feia
e sacudir-me como um grão de poeira 
desatar a correr como habitante aérea 
cada passo mais largo cada movimento mais lacto
posso explodir-me para desaparecer na ordem
e deixar que fotografem a extensão de cada célula
agora cingida pela rebentação de uma e outra onda
e todas as ondulações que o mar continuará a trazer
sem nós