domingo, 29 de março de 2015
Tirar os pés da Terra
anda levanta-te
não percebes que tudo são andas de muros que
nem se sabe porque preferiste erguer da pele
que te havia de febrar e delirarmos em conjunto
porque são? a vela está por cair ao prato um fio
tudo na cabeça são fantasmas de facto e assim?
depois do clarão há uma expressão pura de laivos
de agente que se engasta de tantos ais e ousarás
da maré uma constante de fé de que tudo é sim
pequenos empréstimos à fé, automatismos à ré
anda carangueja que agente escreve como fala
agente dos campos estéreis e das falas mansas
porra! andamos fartos de ficar ao deus-dará
e de estender a mão e nem o pão de esmola há
anda levanta-te
homens como este branco estampado na pele
de fome, este branco que é um buraco retalho
por onde escorre todo o sofrimento coalho
que não o dá a conhecer como inteiro costurado
manto de rezas que os joelhos não suportam
porque se não acredita e o silêncio é um poço
mais chão de arrasto que a promessa é secura
um borrifo astral de pedaços de terra sem chuva
de atmosfera e lugar onde cresce coisa nenhuma
Anda. Quero cumprir-me dessa promessa.
Tirar-me os pés da terra.
sexta-feira, 27 de março de 2015
Extintem-se-Nus
são os extintores dos louvores que nos calam
quando a cidade se cobre de mal-sucedidos
é grão privilégio a chuva que tudo leva ao rio
iluminando o sol o espaço que fica de desvario
no trabalho que pende de pregar um interlúdio
para andarmos então contentes de cabeça no ar
e os orvalhos nas tascas são sábias calmas
que nos engolem as horas depois da labora.
Há tanto de lacónico como de incógnito
das mãos um estado óptimo de não estar
como as rochas que estão para o mar
os olhos fechados são o apoio para continuar.
E na escuridão progredir.
O caos se inspira de pontos soltos
perpetuar o calvário de um pensamento quebrado
se vergam perigo-nos de sermos o contrário
onde não há destinos, apenas trabalhos.
evaporando-se-nos a aura da infância
no lume que arde sem diques de interrogação
amostra de qualquer coisa que podia ter sido
outra.
Andam os autos entisicados de homens
é o próprio diálogo um parvo vocabulário
de se ser um unicórnio sem fantástico
perdido nos torniquetes do tempo alheio.
Ah borboletas do zodíaco
os pilares ossudos do mais oco dos mundos
e mirradas nervuras que nos forcam
qué das forças que nos alienam das covas?
adianta a seiva ser nutrida de ofuscada vida?
nas madeiras intermitentes das entranhas
onde as nossas mãos serão sempre estranhas.
mas diz que a morte é catana inquietante
e a ventana carece de sinos que nos chorem.
Adianta.
a penugem dos nossos corpos veste-nos
de uma animação marioneta de ser criança
se oferece selvaticamente a película do gesto
a fervura da ira de uma fauna fausta de nada.
porque se carrega nas costas um peso
um peso nublado de ascendentes de teimas
de termos que ser todos mais alguém
histórias bíblicas...as gaivotas em voltas
concluídas. Corresponder ao amor e à lei.
Mas a propriedade de regressar à original
forma desformatando matando a forma
se recuar e suplantar e superar e ar, Ar!
Adensa-se condensa-se.
Saber da arte de nos evaporar este estar
é muito mais além de caminhar
só por caminhar. E nus. Que tudo o resto
há-se pesar.
terça-feira, 24 de março de 2015
Ainda em desbloqueio. É feio.
I
Os degraus a tropeçavam, não havia outra hora para expirar uma manhã que afinal começava. Tanto de si se perdera nesses saltos que a pouco e pouco, a lua se esboçava de transparências que a alma cuspia de noites sem sol.
Míria se encostava ao poste. O autocarro deveria estar a chegar e no seu relógio pouco sono poderia alcançar. Tudo poderia ter sido de um outro universo a menos que lá muito atrás, tudo tivesse sido diferente.
E em todas as línguas o seu corpo exprimia o mesmo desejo de se elevar como um anjo. E não tinha passe. E não tinha outro rosto que passasse despercebido para no torniquete do turno da manhã as olheiras se desconectassem. Esse analógico avatar que insistia em se projectar de dias que ninguém queria acordar.
II
-Mas porque me estás a perguntar se fui capaz de ler? Não estava já tudo cansado de ser?
O sol se erguia de coragem. Lutantes de alma esfriada por tempos que ninguém mais queria ter dentro.
-Sois comunistas pois então?
O mundo se compelia de barulhos. A infância extasiada de mundos que não foram sonhados por estas cabeças. Ideias que se emprestaram de capas de super-heróis onde a queda nunca foi mais de primeiros andares,
-mas e então? Estais convencido que algures me comeste o dom?
Mito para além do som. Porque o silêncio é um estrado onde ninguém se chega à frente. Deuses que não têm vontade nenhuma de ser gente. E depois, todos andamos um pouco às avessas de estarmos fartos destas roupas. De nos entornarmos de notas falsas. E ainda. de nos aventurarmos por montanhas de malgas infâncias perdidas.
-talvez tudo tenha sido um crime. E nos tenhamos alienado de um papel de cenário.
Pois foi por isso que correu colina a dentro, antes que o sol fosse noite no Alentejo. Enfim um espaço se definia, daquela janela tudo se corria como a flanela que o frio protegia.
-Mãe, teria tanto para confessar-te na igreja. Mas o Cristo parece que se embriaga do nosso sofrimento e quanto mais água, mais afogamento.
III
Por isso, por fim o cão tinha o nome de Napoleão. O primeiro de uma geração que haveria de estar em comunhão com um quê de ainda quero escutar a canção da manhã e por outro lado, não quero dormir a teu lado, meu mais querido futuro enjaulado. Estamos sempre do lado errado não é? Pois se assim não fosse, esse monte Alentejano nunca teria sido o meu predilecto abrigo. E no janelico, onde tantas auroras nos havemos amado apenas com beijos roubados nas grades que a mão haveria de acordar, esse janelico, haveríamos de recordar.
E eu posso correr colinas subidas enfim. Até que o sol se canse de mim. E de que me vale tudo? Se afinal nunca seríamos melhores amigos e muito menos donos de uma terra de frutos.
Vá lá dança. tudo nós nos cansa de tanta vida tão intensa e depois. Pequena,
IV
Haveis feito uma pausa em toda a vossa oração a nossa senhora? Talvez toda a palavra tenha sido corsária de uma alma perdida sem infância. Todos sofremos de uma certa ausência. Como se nada nos chegasse e tudo nos parecesse uma capa de super-herói que na hora da queda, é animada. Haveis feito as pazes com o vosso passado? Pois isso é mais do que necessário. Depois, tudo para a frente é um armário onde se arruma o que se quer para nosso estádio. E tudo tem de rimar? Não. As ruínas que nos deixaram os nossos pais são tão ingénuas. Não somos nem donos de uma qualquer presa. Somos só pessoas que anseiam viver demais. Hoje era para se escrever um conto, em prosa se haveria de descrever um outro. Tão ouro para quem se deseja num outro universo que não este. Mas que pode este de tão pouco? Pois parece que já vivemos tudo e a morte não nos chega senão no luto.
V
É tudo tristeza de estarmos para aqui a falarmos sozinhos a estas horas.
Mas as lágrimas são a mais bela prova de estarmos ainda vivos.
VI
Míria vivia numa casa térrea singela mas familiar férrea. Onde os seus irmãos queriam tomar posse, ela ainda procurava que a mão fosse um cordão de dois mundos em colisão. Só precisava de tempo e dedicação para que o nascer se revelasse novamente no seu olhar e perguntasse - que estou afinal a procurar?
E depois se vestia, depois do banho, se pintava e penteava de senhora do dia. E para ele olhava enquanto dormia. Tudo de uma terna calma que a deixava anestesia.
-É que no tempo em que vivemos, alguns de nós têm de ser dois dentro do mesmo.
P.S.
Porque Míria aguarda ainda pela sua história. Dentro destas memórias de desabafo de impasse por tanto que não se passasse. Mas está quase. Já move de dentro um rápido alento. Como se tudo estivesse encubado no tempo. Apenas apurando o melhor de todos os graus de um tango que se tem dançado sozinho na mente de um sem-aflito porque a poesia lhe tem sido, abrigo. Calma, quase, passo a passo, a letra se encosta na linha e a história se chama, chamando, chamamento de suplício de vindo por dentro ter mais um deus a falar pelo vocábulo ventre.
segunda-feira, 23 de março de 2015
super-homem
costumava pôr flores na cabeça do pai
dizendo que a primavera lhe ficava bem
e lhe tirava o cigarro da boca
porque a doença não tanto.
À mãe lhe puxava o avental de choro
tudo queria a seu gosto menos a colher
de óleo de fígado de bacalhau à boca.
todo vestido de negro e uma capa azul
assim se recriava de ser homem à janela.
de concórdia. todos tivemos a idade
de uma outra monstruosidade pelo menos,
dentro da nossa memória.
à luz do que permanece imperdoável
se deixar de lado o entendimento
avançaremos pelo chão a dentro.
de pára-medos a segue-ventos.
Em nós
o estado continua a agir como céu
e agindo sobre ele um seio diagonal
sem parar de olhar, tudo banal
e no oleado de plástico chovia
um lacrimal torrencial
autógrafos de uma tristeza asfixia
e um chapéu de abas a condizer
Ai, que é a blusa que se está a descoser
são margaridas que estão por florir
e noites ao lado de cruzeiros que chegam
inquietáveis anos de doentios poluentes
de completamente inteiros rios
onde afluam almas ainda adolescentes.
as animosidades dúbias das palavras
de ver passar o tempo em distâncias
de tudo ser seguro nos detalhes.
os mamilos inchados e húmidos
a carne inquieta que agora dorme
o cabelo eriçado apaziguando um interior
que nas coisas simples se inverte de dor.
laçadas e adornos de momentos magníficos
perdidos depois no sussurro dos pés rijos.
Por quem ou porquê? se não propaga o calor.
de uma impressão tudo a sair da boca em vão.
turbilhão de afazeres por estar vivo
picando de vez em quando o verdadeiro sentir
num beijo, apertão ou escorregar do corrimão
mas tudo em asseado controlo.
que isto de estar em voo dá quedas
Esta cidade qué tu
deixo um pedaço em quem levo
essa amante intermitente cidade de gente
eterna que nas tabernas se esganiça
do ponto de vista de quem lá fica
o pregão da pior das vidas
ou porque se descalçada despida de vultos
na mais sombria das madrugadas de velhos
e um género de escritor a cada dois mil anos
adormecendo no panteão dos veteranos.
tresloucada peremptória de pormenor
da grosseria a pronúncia do antigo fado
onde ainda se encontram tímidos
gaiatos apaixonados e corações descalços.
versos que se descolam em aviões de papel
mapeando jardins pátios varandins terraços
candeeiros jornais cigarros e travesseiros
assarapantada de santos padroeiros
e cinquenta idiomas arruaceiros
o caloteiro promete: um sofá à beira Tejo!
e um vestido de veludo para as noites de Inverno
não se julgue no direito de a sentir como minha
quando do topo da colina se chora a saudade
um jaguar deambulando nos campos de romaria
de querer ser travessia e melancolia
de nem saber mais o que querer
porque sou eu que sou dela a poesia...
um pedaço de paisagem, de cromatografia olhar
que se reflecte em lágrimas de um choro seco
que se bebe do mais tristes dos passeios sós.
Cidade que depois de vista e despida
és enfim pequena
e te nasces a cada chegada batina
eu a mim, já me conheci como tua
não tenho nem quero outra beira de lua
outra ponta de vento outra nota de fado
sou mercado e mercadoria, colapso
tudo à beira de uma adiada retina rotina
e só posso dizer que me lamento
se tudo o que digo não se justiça ao pensamento
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