quinta-feira, 14 de maio de 2015
quarta-feira, 13 de maio de 2015
somos tantos e nenhum
interrompendo o passeio para fumar mais um cigarro
das garras do fumo verbos sem assinatura aos céus
e começaram a soar passos abafados
pedaços de mente queimando a energia
amaldiçoando um lugar chamado dentro
chocalhos como pedras de calçada soltas
rebentando o rifão: enquanto à vida há...
-vai indo não me posso queixar muito
a vida defendida pelos melhores criminosos
que raptando o horror ao sentido que não é
caindo de amores em síndrome de estocolmo
-por essas razões somos todos inocentes
só é preciso lidar clinicamente com o ódio
a violência contida que fica nas palavras
um complexo de outra mitologia qualquer
-o que te dará mais poder ainda?
aprender a manter o mundo no seu lugar
e se for preciso ameaça-lo com a arma
que das nossas mãos passa para a folha
e o cinismo, ah o cinismo é o bálsamo
com franqueza o adquiri por empréstimo
a um outro qualquer poeta do fingimento.
mas a ponta do cigarro requer sempre outra
e as teorias mais perguntas tal barras de aço
anti semitas, porque deuses há muitos...
por aí passeando à beira do passeio
ária do silêncio
o tempo - ária de pranto interrompido
o descanso é acanhado pela fuga das horas
tenho o fundo rasgado debitando compassos
ponteiros de relógios ao contrário
e da passerelle gradeada coxeando
às doze certas abóbora em Cassandra,
múltiplas preces em berros selvagens
-daqui ninguém se salva!
simples unidade solar de anos
incrivelmente rápidos e insanos
e escapando à definição sensorial
de conotação afectiva dos dias a mais
tudo é lugar danado para amar
e quando o espírito me vier visitar
logo réplica lhe irei dramatizar
uma cela para uma cela
e um tom sério para vivê-la.
o sol, as estrelas e a própria vida
come-las esfomeado de semiescuridão
porque a outra metade é para mais tarde
para quando o tempo for paragem
quando deixar de ser mera colagem
e meus filhos dessa cadeia nascerão
meus dias de folga da penitência
de estar amarrado à força centrífuga
confiando mais no coração
e muito menos no relógio de surtos
nesse movimento perpétuo de ser alguns minutos
quarto de madrugada em absurdo
e no corredor da morte apostando a vida
nos braços lentos do regaço de um poeta
terça-feira, 12 de maio de 2015
try to walk in my shoes
queriam que se descalçasse
como se o chão fosse uma mesquita
e os pés se varressem por acaso
mas quantos já calçaram os seus sapatos?
tendo calos verdadeiramente satânicos
e joanetes lhe moldando as formas
e enrugados porque usados esses sapatos
são como um vagão de paisagem batida
vagão do que foi viajar em primeira vida
são hoje um quadro monótono
com buracos por onde a chuva
às vezes é incómoda
e aldeias enterradas nas solas já gastas
amplos armazéns de micoses coçantes
riachos de suor de caminhadas teimosas
o brilho sinuoso à muito que é oásis
e aventurar-se de novo, talvez fosse impossível
que uma vez se descolando na frente
atrás fosse o óbvio
mas não tendo outros, esses sapatos solidão
querem ainda anunciar que carregam
pés de carne e osso
pés que vibram com o frio ou o calor
pés que dormem calçados no passeio
e bem atados ao tornozelo,
querem anunciar mas não falam
como se o chão fosse lençol de pedra
e por respeito, há que tirar os sapatos
como se o chão fosse mesquita
e os pés se varressem por sina
quando deus afinal está lá dentro
esse templo onde ninguém
pode entrar calçado
mas faz frio,
se faz faz frio no inverno não temperado
e que pode ele fazer senão dormir calçado?
o que arde cura
está um homem no escuro à espreita
-hit and run
o franzir da testa a meio do passeio
indiferente à multidão de entes
a multidão de corpo imóvel
que o envolve por uma pressão inevitável
sem objectivo
portas giratórias do invisível
para dentro um átrio de estátuas
o som provocado pelas gargalhadas
de ninguém
e o homem de mãos ossudas nos bolsos
ainda o franzir da testa
tal animal em campo aberto
a ponta de cigarro num vaso de areia
e o pêlo já raiado de grisalho
pás! a alavanca do andamento
mede o maestro os quatro tempos
o osso partindo-se como galho frágil
-tenho a ira sufocada na voz
e esfrega agora as grandes mãos
o anel de ferro que na pele enterra
tudo ainda espiando por detrás dos buracos
uma bomba de incêndio de vácuos
escravizando um alívio que tarda
cavando dali são e salvo
de nada deixado ao acaso
e vagabundear pelas labaredas relutante
sibilar através das paredes
mudar o peso do corpo
para no jogo de setas ser o alvo,
e já meio careca do fogo
olhos alinhados no espelho instante
o crédito da alma falecendo
caduco assassinado por um peito caloteiro
e a lista para o capelão:
emborcar, ter licença para mostrar as divisas
as devidas cinzas bugigangas
e para ser aplaudida a parte dorida
um coice de mula por último
à medida que o fogo tudo renova
e principiar
um desassossego sem mais cólera
segunda-feira, 11 de maio de 2015
pensando em isso
-é difícil de explicar, essa revolucionária pregação
é como se deus se estivesse a enganar e a pilhar
quando se está entre gente que não se sabe estar
sente forte o cheiro da poeira ardente árida gente
uma espécie de solução permanente que não se sente
de se estar sem fôlego no fundo do lago extinto
e das contas do rosário de zimbro reza o incrédulo
perturbar um céu esquisite-se tudo ingénuo
de resto se aprofundam verdades de cara fechada
velhas como estas que nos anulam de perguntas
sinte que se imaginam palavras chumbadas de alma
mas não saber se lhes conhece o rasto ou se esqueceu
talvez seres extra atmosféricos que dentro de nós foi
da nossa cabeça periféricos recortes de seres
rebuscando o que se conhece tanto e sem fronteiras
-qualquer coisa para contar numa viagem às órbitas de si
uma e outra conta pelos dedos que se esfregam de fanatismo
altas faias escutam-se segredos que se tomam de só
e apenas túmulos de família para nos deitarmos
para na chama estatueta oca nos realizarmos
da amargura onde se serve material distraído
o homem se começar a encolher de tanto alarido
que relação há entre nós? quando se acorrenta o absurdo
não tem olhos nem sonhos esse cadáver pessoa esquisito
talvez nosso deus era cego e agora fosse de códigos relevos
sossego e recolher coisas sérias no cicatrizar dos dedos
a argila lá no fundo em desordem - grosseiras talhas
que quem molda é a falta de falhas
-eis-nos em conflitos de covas
o meu é mais fundo, o teu é palpável
de se procurar escapar pela sombra
à mais insaciável sede das montras
essas coisas que só no céu fazem sentido
por isso deus está confuso ou nós nos confundimos
concreta mente és
cujo tecto aberto em clarabóias de significância
o primeiro choque é a constatação de não haver
há um porteiro ensonado de uma voz solta
o administrador de uma grande coisa celada
a todos aqueles que se querem ver dentro dela
não há absolutamente nada para lá dessa
que não possa ser contido numa ponta solta
cujo tecto aberto de despede de um ponto
na sempre volta amainada da terra pela lua
mas um ponto antes ponto agora estilhaço
deixando cair a luz inerte do seu colo
de não saber se dentro se fora mais perto
pusera-se a contemplar essa coisa
interrogação, tendo oferecido o pão das estrelas
e toda a gravidade do seu coração
um homem nem bem perdido nem bem achado
que antes amava as ruas da sua ruína
que antes se sentia completo na sua nostalgia
que antes a dúvida o consumia, fugiu de órbita
e estendeu a sua mão
numa palavra pedindo a passagem sem volta
de o dizer a um desconhecido a verdade
ampliando toda a vontade de ser qualquer
um homem qualquer
mas sem história
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