quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Cena 2


As pedras de gelo giravam no copo. O tempo lento de um pensamento que se entendia para lá da distração de pensamento nenhum. Que idade? Que nome de ninguém, sentado ao balcão mirava uma imagem perdida no espelho do velho bar do cais. A esta hora da tarde só as moscas de companhia e ainda o cheiro bafiento da noite atribulada. Dois dedos de líquido âmbar que no copo esperavam. Lá fora uma aragem ia bambaleando as asas de madeira, uma fronteira entre esse burburinho de pessoas que passam, carros e sirenes. Não se respira, o calor de Agosto gira na ventoinha do teto, um enjoo de hélice. Mete os dedos ao copo e procura agarrar a pedra esguia, nas têmporas um acordar ou simples anestesiar de uma dor mais fina que o próprio fio de cabelo queimado de um Verão que não finda. Uma estação agora demasiado longa para uma cidade que não sabe por onde respirar. Todos os canais que vão dar ao rio entupidos de viaturas poluentes e ratos. Ratos que atingem dimensões de gatos, gatos com cores berrantes de verde fluorescente e homens cada vez mais raquíticos. Da alma e do corpo consumidos. O rapaz de barba aparada limpa um copo, olhando para a porta pensando que sem fazer nada o tempo é ainda mais pesado. Contorna o bar e na cozinha pega nos sacos do lixo. Pelas traseiras leva-o ao contentor, que só de madrugada será aliviado. Uma velha prostituta compõe o cabelo. Então rapaz é hoje que vai um docinho? Ri-se sem dentes esgarrando um batom cor de sangue e suor. As rugas e as pregas na barriga já não lhe conferem um lugar lá dentro e há muito que aquela esquina é mais contrabando de pílulas que agitação de ancas. Os rapazes do cais sabem que é ali que a qualquer hora da noite a podem encontrar e a qualquer preço um pedaço de céu por ingestão ou inalação. Quem diria que o céu era afinal comestível? Quando era miúdo o céu era cor de rosa e vinha enroscado num longo pau de ásperas lascas. A mãe sempre anunciava o fim do algodão doce, que não chegasse ao pau pois ficava com a língua cravada de dores. Para a mãe tudo eram dores e dias por vir de mais dores. Assumia até as dores dos periquitos, que dizia ela davam-lhe maleitas do pulmão mas ai de quem lhes desse liberdade, dizia que se esquecia de o ouvir gritar no canto deles. Merda para os pássaros da velha, leva a pedra à boca e trincando com asco o gelo procura estilhaçar essas memórias que têm tanto de podre como a latrina ao fundo. Procura pela carteira no bolso do colete. Apalpa, não encontra. Nos bolsos das calças tão pouco. Olha para baixo do banco e ao longo do balcão, estaria na casa de banho? Teria ele estado ali ontem à noite. Não se consegue recordar. Na última semana tudo estava envolto numa neblina dúbia. Tinha ido à terra, o funeral, a chave da casa da velha mãe, a viagem de barco e agora ali. Traços apenas de um desfilar de acontecimentos que não mais lhe diziam agora. Estava ali, a bebida não descia e da cabeça não saía este azedume de mal estar sem saber que nome concreto lhe dar. 
E agora a carteira, mais essa. Um homem sem notas e sem cartões que pode fazer. Rapaz, preciso de ir a casa ver da carteira. Deixa aí o copo de lado. Certo, patrão. 
Quando atravessou as portadas de madeira a luz da tarde a pique cegaram-no. Talvez fosse ainda meio dia. Tempo de inferno de verão. Limpou a testa com o lenço e seguiu rua abaixo. No bolso tilintavam duas chaves, as de sua casa e as da casa da terra. Ao caminhar passou pela banca dos jornais. As letras gordas anunciavam a visita espacial dos vizinhos galácticos, tinham sido chamados de Nobes, sabe-se lá porquê. Ele pelo menos não sabia e tão pouco lhe interessava essas modernices, o mundo atual há muito que já não lhe causava espécie de pergunta. Podia descrever-se como um homem drenado de linfa ou genica. Havia o bar que só lhe dava despesas e agora a casa da terra...que faria com ela. Na travessa da sua casa, a vizinha pendurava a roupa, de tal dimensão a gorda que a corda chegava ao chão. Nem bom dia nem boa tarde, que há muito que não se falavam. Já nem sabe dizer como começou ou onde não parou, mas trinta anos de implicância ou de mal dizência, pensava que as pessoas que ainda moravam nestes bairros ou que moravam nestes bairros deste sempre haviam ficado cristalizadas no ócio do pensamento e talvez por isso se odiassem. Que as suas rotinas de lavar roupa ou atirar pela janela o lixo não haviam mudado nunca, antes piorado os seus hábitos de animais defecados de pensamento. Ele próprio, também ele uma pedra dessa calçada que ninguém concertara. Buracos, como os buracos dos degraus de madeira das escadas do prédio. Ou as falhas no seu teto. A chave à porta, o silêncio do interior. Um momento de inspirar e deixou-se cair no cadeirão da entrada. Fechou os olhos, não deu pelo cair da noite. 






domingo, 21 de julho de 2024

Cena 1

 Tinha um ninho debaixo da cama
um violino e ramos de oliveira 
os braços em velcro sem remar
a chama na cabeceira sem oscilar
na caixa guarda sonhos e no pote 
um cruzamento de elixir com porção 
dos olhos fabricação de viscosos entes
a miséria de silêncio bate no teto e volta
todo um oceano sem revolta de água morta 
tem um brinquedo ao lado, raiz de inverno
triste se brinca só pela noite densa
no suspiro das rachas das paredes 
brotar dos lábios irmãos um cigarro
das arcadas das janelas de outros fados
Moro na beira de um cinema cemitério 
uma tela veneno arquétipo 
ainda se quedam os cabelos no pente
parapente de esvoassamento era o seu fio
absoluto dourado relâmpago 
para o pensamento sempre fluvial
detenho me ainda nas impressões digitais 
no pescoço, no seio, nos cotovelos
lexical manto o colchão ondulando 
detenho-me de traduções vãs
as calças ainda postas e no bolso uma resposta
uma chave
quem sabe se estou em casa...
se numa barca rumo a outra margem









terça-feira, 16 de julho de 2024

Figuras do Barro


a respiração melancólica desfaz no óleo 
murmúrios de cascas 
faz escuro, engolidos pela sombra sentinela
figuras dos sem nome
pelas mandíbulas de almas apartadas despidos
de um vai e vem de nadas homens furtivos
aonde uma casa é lugar de trapos e lixo
tetos de cabeças de árvore sem orvalhos 
uma existência de madonas sem espelho
nascidos de uma moeda por acidente sem troca
em  quartos de chapa
o mar de chumbo marginal e céu monótono
estavam brancos os pés por correr, as massas moles
o globo repetidamente enfadado de voltas
e apenas estrelas de ilusão empoeirada
o retrato
avista-se uma perna de manequim no telhado
uma data na porta gradeada de floreados
roubada de outras épocas outras paredes
um pequeno pássaro que penetra no veludo vermelho
uma voz de bossa nova, um abanar de anca
assim as portas fechadas 
como uma carta por abrir sem vontade de ler
erguem-se muros, fecham-se os olhos 
ou que em vez de cativas fossem escoadas pelo ralo 
vidas que não valem o mesmo
salta, trepa, constrói um campo de futebol da terra
pedras que em pés descalços são minas
banhos de barril em sabão azul
calçam-se os sapatos da missa, as solas omissas
e canta-se em cada esquina, vozes unidas 
há uma cruz invertida ou um mundo aqui dentro ao contrário
nascem deformados, sem dentes e sem vocábulos completos
para não ir além desses tetos
brinca-se em cavalos de ferro, veículos desmantelados 
livres para seguir ao volante desertos 
bancos de areia e mais areias de aterro espacial

os verdadeiros cavaleiros do apocalipse
vieram danados...desnutridos e cansados 


quando chove, apaga a luz







sexta-feira, 7 de junho de 2024

Espaços em branco

 

O branco lugar de larva memorial
aos pés desenham insectos linhas de trânsito 
sem colisão, sensores perfeitos de mecânico 
os dedos dos pés criptam e arranham
os dentes rangem para mastigar alma
os olhos persianas semi cerradas 
um deserto ou desertor de si próprio 
grão onde dedos que dançam se enterram
a língua desenrola-se e dela flui uma torre
o horizonte é sombra de altitude 
negra a torre de tabuleiro movimenta-se 
um tom de castanho mais pobre mais adentro
como se tivesse criado uma distância maior
na óptica de insecto atarantado
ou de pássaro esborrachado contra aresta
é com o movimento ciclónico movediço
que das dunas crescem crostas na pele
a areia seca de chuva ácida como castelo 
que umas mãos pequeníssimas engoliram
intermitente na linha nasce o fio oceânico 
as pálpebras quebradas de luz
o coração terráqueo 
a criança atada ao branco 
num mantra de pavões de aço
a cela canta tão alto que não se sente
não sabe a que deus, não sabe a que céu 
talvez peixes ou cactos-cavalos 
espelhos desmaiados de pedaços parede
e uma porta nave fuga 
a chave de todas as portas esquecida
quem se pode atravessar só perdido
de celeste a pesado pedaços de vácuo 
num tempo de tudo ao mesmo tempo
de célula e solidão cambalhota de contração
o ser é um estado particulado que se atravessa
como se sonhos sonhados ao mesmo tempo
a língua retoma com a fome dos sem tecto
o branco ainda preso na perna de elefante
raiz de restos espectros
agora que nos vemos de frente
estamos de pé porque vertebrados 
os olhos estufas húmidas de mofados
dedos sem folhas e sem desenhos de castas
dedos que ainda não se tocam
eram crianças despidas de anos
e dos lábios apertos de gargantas secas
...deixaram passar anos...
um voltar a si de planeta sem rotação
com a canseira de quem acabou de chegar
sem ter visto nada
do rebentar da semente talvez mutante
e já acumulador de tralha de tanta gente
um ser de onda invertida contra a linha
com o punho enfiado na terra 
a torre deixa-se ponto vestígio
terra ao núcleo glaciar ou plasma
ao feto objecto deixa-se uma herança de nadas
Feto que há-de crescer inseto
uma e outra vez
insecto de trânsito mecânico 

-assim me parto, deixo as pernas e um quarto, levo apenas um braço e um pescoço helénico...
talvez possa dar jeito para ver do buraco do tecto a cúpula finita do pensamento 
-partimos juntos então...





















domingo, 14 de abril de 2024

Julgo que lhe teci ...

 
Não sabia mais o que plantar na noite
as luzes intermitentes ludos de outro mundo
em cada folha caduca uma certeza perdida
um cavalo de pé anfitrião da neblina 
olhos brancos, da pele já esqueleto amorfo
mãos que abrem em fole notas desconcertantes
espiam bichos o ser colonial do tempo
aguardam a rotatividade dos sóis 
imóveis nos prados da alma
imagine no delírio ad eterno o revirar do feno
o espírito sem doença pôde trotar veloz
essa estrada que não se avista é ludo
objetos bússola agora inúteis 
tinha uma perna mais curta
um olho mais aberto
rasgava o evangelho para atear o lume
noite fria de credos, sem insectos
o pensamento cresce reflexo e acanhado 
talvez mude atraído pelo estranho que chega
-sou a imanência que deixou lá atrás..e o reencontro
apagarão os nossos passos da memória 
porque com ela chegam batalhões de outros
do fundo de si mesmo, fantasmagórico 
Não tinha moedas no bolso
nem fé de outros patamares
apenas o labirinto obscuro da morfina
Berrou barítono de medo
balbuciou o ser e o nada na contração 
Em posição fetal, sentiu leite materno na boca
o perfume do corpo quente sem mais ventre
E a expansão...o ventre é tudo, o ventre é mundo
assim lhe teci a manta e o gesto sublime do afago
O seu respirar frágil cessou
e virá do terceiro mundo como semi deus
bobo, mais louco, que renasça como poeta
não julgo mais esse sonho..
Há uma violência pagã na aceitação 
a barbárie do abandono do peso
a forma vazia com que me olhas sem desespero
e eu deste lado como milagre frágil do tempo
E mesmo que nada aja
engana-me com esse encanto..numa brisa
no desviar do pavio, num retotno de eclipse, 
ou simples estrela cadente 
Às vezes demoro-me na janela do quarto
nas falhas do horizonte
lá onde as formas se entornam e desmaiam
no arrebatamento da teatralidade do sonho
Vejo o teu aceno...e sorriso e olhar astuto

Por agora..nada mais te posso dizer..
depois anjo da vingança te viverei


Viver é sempre uma vingança não é?

















quarta-feira, 27 de março de 2024

Um flutuar para seguir caminho

 

Agora sem braços, mesas de mármore 
as arestas dos segundos são cabine de página 
temos a audiência do espírito, o número cronista
ninharia de tão delicada pétala fisgada
soava a vazio mas era pleno e a mão no cotovelo
O mundo novelo
apertei a mão e disse: que prazer
move a cabeça e os lábios de segunda pele
as cordas derretem como mel calibre de controlo
já uma espécie de controlo e dedos reservatórios 
Zumbir, a montagem do satélite 
o som oco do êxito os dedos dos pés obsoletos
ombros, saltos, cabeça, cadernos de estômago vazio
em black out, o mundo oco de corpo
disseram que a escuridão era familia 
como se me morresses todos estes anos
em nevrose tão elegante quanto estética 
e a boquilha que me satisfaz.na pista de dança
sanguessuga bruxuria virtual.
no impossível de uma fatia de pão áspera 
Um quarto de meia vida 
meu pai pele tormenta de cidade esplanada
A vida não é nada. 
Mas depois de nós foi tudo. 
Estima, o livro que envelhece de amarelo
se desfaz na lombada de velho
Ateia a origem. O silêncio é a paz e de tão lenta..no último momento regressa a menino
sente o pão e o vinho, sabor a palha sabor a tudo
a energia que nos fazia golo estingue se
...durante a noite..desfez os cabos com os fios de terror nocturno 
Achou que já não acordava mais uno





domingo, 17 de março de 2024

O indivisível lugar do fim

 

a lasca 
o indicador desliza e fixa um ponto
o olhal da tábua de carvalho e os anos
a esta hora nenhum orvalho apenas silêncio 
microorganismos que trocam vestígios 
e a luz elétrica que se expande pelas linhas
talvez seja lasca, unha ou casco
o caminho da evitação sanguínea
as asas ramos de intuição e vertigem
na subida de cada tronco, angústia angular
corpus spiritus de cabeça e cauda
que tens a teus pés amanhã senão o fim
para ver a luz ultimato de recreio e ordem
o calor da vida oceânica a nu
no átrio do peito mítico de um símbolo 
não sei se deuses se anfíbios 
talvez sombras ao precipício da repetição 
a morte do verbo na constante ebulição 
para se evaporar a figura de uma fórmula pura
plenário. encontrados os cantos dos claustros
ainda o corpo coluna alegórica 
o mesmo leque abrindo e fechando
o príncipio do ar rarefeito e do aperto
quase tudo na vida foge ao sonho
um dogma para crianças em corpos velhos
a palavra é mas não se diz
cada processo de almofariz a alma magna
pedra cúbica ou quarto morto pelo mundo
Ou para o mundo 
Todo o dia seguinte é ressurecto
porque não a nós pergunta o desconecto
as palavras não existem sem boca
o lugar hermético das coisas
as lascas...
o corpo apreendido começa a lascar
a teia de um tempo moderno
sem notícia de crime ou fé 


talvez os esotéricos julguem melhor o processo