desfilam rostos numa linha de sol poente
os pés mitigados da arquitetura de pliés
profundos, fluídos...para a verticalidade
edifícios plásticos como carne para ossos
colonos orgânicos da metáfora da natureza
mais crítica e severa assim concha em espiral
o processo de casa abrigo corpo interior de luz
aço, betão, terracota impondo muros e tectos
e um aeroplano rasgando copas em órbitas
fazendo frente ao vento contrário da mente
aterrando no umbigo fustigado do mundo
a bordo de um simples e tímido insecto
não asas de cera nem papel de lustro
a longa caminhada da fantasia lunática
gloriosa loucura da máquina voadora
de uma ponta à outra da terra
implantar-se de mais cruel e vil espaço bélico
as cinzas transferidas para um outro tempo
lugar de pulsão e aberração objeto de sangue
fórmula de matéria que se desprende da alma
na abstração sediciosa das coisas raras e belas
no encontro grosseiro dos nossos cadáveres
exploradores polares
assim também os cavalos morrem de frio
e as palavras olham de frente para a morte
exaustas de provisão e posteridade
sucumbem à distancia do alimento e da cria
verdadeiramente sós no seu diário
conduzem os cães trenós oníricos
na caça à baleia a expedição do abismo
e a condução veloz de mais fundo
às almas livres os passos antes elevam
se entregam as rédeas na tutela de nadas
para levitar um submarino
um pássaro em fogo
a insustentável brisa de uma força centrípeta
nas intermitências de cada respiração
no bombeamento de cada vibração
a obra perfilha-se, ama-se, odeia-se, rejeita-se
vomita-se de mais obra
o trágico alimenta-se de mais trágico
o peso de mais peso
a dor de mais dor
e o fim de mais começo
e é por isso que quando adormeço
no medonho odor deixado de cadáver
nas planícies devastadas da angústia
desapareço como facto consumado
por isso...
não durmo...sonho