quarta-feira, 27 de maio de 2026

segmentos de fogo


na penumbra do quarto de hera viscosa 
simples essências emanavam em teia
respirando purificando de muito verde
gestos delicados ao mais ínfimo sopro
de quem dorme no desconsolo da obra
lugar esculpido em paz
ela dorme junto ao chão coaxando
ventre peito rosto de abandono 
o chão é fresco de pedra cinza 
cifra cicatrizante com rastos de sangue
a alavanca postada para a abertura de um fosso
espécie ancestral de espumante raiva
esbatido apenas se vislumbra um fosso
subsistência onírica que o amanhecer esbate.
uma parte da mão está descaída nesse cenário
omitida fervendo na desordem do submundo
que não é mais o ritmo da vida mas sim lírica
para trazer à boca uma sede infinita de outra boca
e aos olhos os pântanos secretos de outros olhos 
eles passarão, por esse pequeno canal ventral
mas o corpo é pesado e simbiótico do quarto
ecoa a dor da impossibilidade exilado
não sabe que espécie de charada escavada cela
era um quarto sem janela rotativo aquático
talvez fosse um aquário
e um corpo que não sabendo nadar estava depositado
sedimentado como areias ou algas ou pedra
sem necessidade de criação a grande casa inteira
por essas alturas o tecto de toda a largura da terra
e girava rodava sobre si mesmo um lugar frio
um corpo acolhendo outro corpo já morto
se a vida fosse vontade ou intuito sem credo
sou como fantasma inteligível aos olhos
se nos esquecem os olhos um do outro 
e o negro nos consome de branco por dentro
tudo ressequido de palidez absurda
e o tempo enrola-se sobre si mesmo desdobra-se
de concreto medo, é neste verso que nos sugam 
para dentro desse penhasco invertido ardente
as pedras, areias, e por fim a hera
esta parede cratera de céu aberto não é mais a terra
antes uma nave à deriva pelo espaço siderado
um sistema sem futuro nem coordenadas
o corpo já não sabia se coaxava no chão...
ou se era a pedra já cinza sedimentada...
ou se no princípio era o verso em si mesmo
comido dentro da própria boca, na cegueira do 
mesmo olhar, espelhos um do outro
para divagar...sem mais tempo...pela escuridão  
                                                  do inferno













 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

o poema é um lugar de ficção

 

era uma casa de linhas desmaiadas a frio
entre a terra e o céu, o caminho mais longo de profundo
dir-se-ia que os andares ao invés de subirem alongavam-se
e por dentro era infinitamente maior do que por fora
talvez no terceiro andar ou no segundo viviam
como irmãos entre vários família animal vícios
nos corredores da casa jaziam garrafas e beatas
nas camas os lençóis eram amarelos azedos tesos
e quando vejo passar vulto espectro de mim 
uma figura mais pequena desnuda miúda frágil
vejo na zona lombar arder e o corpo consumir-se em buraco
assim pego-lhe ao colo e tomo-lhe o rosto, irmão 
grito em desespero por ajuda mas dentro daquela casa ninguém respira
corro e as minhas pernas são tão pesadas que se colam ao soalho
grito mais alto e mais surda soa a minha voz em aquário, e choro
porque numa casa tão atribulada de cadáveres andantes 
ninguém pára ninguém sente ninguém está verdadeiramente presente
arrasto-me levando-o em posição de feto, ele não se queixa 
não lhe vejo a boca não sei se respira
e pela porta chegar às escadas em caracol, espiral vertigem
assim deslizamos mais forte escorregamos, a morte emprenha-nos
para finalmente passarmos pela porta e passar o alpendre
respiro fundo, deito-o a meu lado pálido enrugado, muito velho agora
a casa parece mais pequena mais equilibrada e sem dúvida inofensiva
ninguém nas janelas, nenhum movimento, silêncio absoluto dentro e fora
como em vácuo, acolho-o no meu peito, choro com ele, choro-lhe para dentro
o alimento líquido salgado translúcido, chega ao seu coração apertado
e em agonia espasmo, ele respira, bebé, pequeno, pele lisa e quente
maçãs do rosto vermelho sangue, e olhos, muito abertos vibrantes
toca-me aperta-me a mão pega de criança e um esgar de riso 
e verde orvalhos azul muito azul de verdade e cheiro de flores
cheiro de leite cheiro de animais cheiro de doces 
e na atmosfera em violência de enterro, a casa mergulha e desaparece
nem linha de terra nem sopro de mofo, a alma elétrica para fora do corpo
para poder finalmente em comunhão andar à toa, andar de livre 
vem chuva e frio tudo a potes, crateras e e montes, sóis e noites
e o tempo instala-se nos ciclos do corpo, no seu tempo de ser gente

às vezes, anos muitos mais tarde, senta-se no baloiço da árvore
contempla o lugar, as linhas que a memória desenha no ar
e fica a pasmar, nas figuras familiares, coisas que por lá etéreas
...respira fundo...nesse lugar escuro e húmido...o mistério em silêncio








sexta-feira, 24 de abril de 2026

Andantes


chagas, cruzeiros de mente natura atracada
castigos híbridos de onda vai e vem purga
pescados à linha sabido de dias movidos de névoa
interlocutores de momentos que a vida toma 
de arremesso só porque sim, cultivando o fim
e contamos ínfimas pequenas fatalidades 
da mais diabólica força das circunstâncias 
sentada na varanda, o rio escortinado de arame farpado 
mulher bruta estremecia do canto arrumado 
rio ria rua sobre estaca e grua, pequena gorda rígida
a rua regorgitada escorria água e lua
era peça frágil fácil rapariga de lancil
mulher indígena de riacho sinistro beleza rara
tinha vegetação luxuriante oculta entre os montes
ternura reconhecida entre horizontes 
tinha-se levantado de madrugada antes de dormir 
num estado sonâmbulo fantasma meio sombra 
quando era criança e era deitada numa pele de vaca
escutava os cascos filigrana de cágado 
era só indígena de pedaço de terraço 
acho que o meu choro era rio sentado na proa
momento insuportável 
talvez indígena de afecto pirilampo de tecto
e os meus olhos rodopiavam carroceis 
ligeiros de velas, porta a porta janela a pátio 
sentaram-me à mesa, vago e inquieto
hoje sinto como objecto obsoleto 
é, sermos refeição para ingrenagem favos
interrompe-me o silêncio da noite 
eles ressonam eu respiro 
foram noites infernais que me punham em choro 
imagina que no cachimbo são lascas de pele
e com as unhas raspo a página amarelada
do livro mais entorpecido da prateleira
aninhar sem tossicar, dizer sem acordar
que a verdadeira família paginando-se cadeira
achava-mos que a pólvora era suor saindo 
da gaveta do sexo e da sagração do universo
era um dia muito mais velha
olhava pela janela escotilha de um barco já afundado 
que sabe do íntimo 
as mulheres muralhas servidas na refeição 
esmaltados de irriequietude
os barcos aguardavam até ao cais
encostados de conforto na escuridão
talvez entre rochas e vertigos, espírito vago 
tenho os restantes anos assentes nos joelhos 
costumava crer que éramos todos iguais 
quem chegava tarde penteava sobre... 
Ela tinha sempre as mãos secas
subindo o alpendre da casa sem lâmpadas 
tínhamos de execução a escuridão 
às vezes os burros rondam a ilha 
mesmo antes da expulsão do vulcão 
havia resquícios
e ainda... 
nunca ninguém acredita 
que todas estas palavras são ficção 




domingo, 1 de fevereiro de 2026

Deus ex machina II

 Curvilínea áspera atmosfera dobrada por deuses 
áspera de pele massa philo de camadas de Cronos 
metidos dentro de si, patinando sorumbáticos
criaturas de altos standards e inteiriçados de veritas
olhos marejados de tristeza, róseo rosto de cabelo liso
heroínas e heróis de prateleira, vitrine de recheio


Havíamos percorrido tudo
com a embriaguez de um embrião 
para resvalar livremente 

quebrava-se o molde, por motivos perpétuos
ganha vida a figura por galerias flutuantes
olhos avultados e pasmados em lascívia 
rasga-se o sorriso para esgar assassino
olhos que nos perseguem de lugar vítreo 
sinais orações ondas de fogo 
bagagem sem passageiro que somos às vezes
a cidade vai-se descrevendo em clarões de sol
o espectáculo da noite império avança 
de tons argênteos e sombras de magros e alongados
membros, alma imergente em trevas

e o peito desvairado aperta-se para conter
quero por força desmaiar-lhe nos braços
mordo-lhe a boca, 
Beijo violento vampírio
beijo-me e desmaio, intensamente caído 
onde maquinalmente me converti em suicídio 
morde-me de novo como fruto maduro esse pensamento 
embarco no acrescento, na renda do medo
rendeiro das minhas entranhas, corpo patenteado
herdeiro dos montes desabitados da infância 
lugares de absoluto silêncio sobrenatural 
lugares de dimensão colossal
Linhas, preenchimentos de sombras, esbatimento 
Parti como folha desapegada da região lombar
o mundo tratando por tu a disposição topográfica 
da mente, com fome, demente, vibrante 
de noite ouvia-lhe os soluços em cânones de chuva
talvez uma tristeza de alma peninsular 
e chorava com a irredutível honestidade de uma criança 
que levamos de passeio numa aventura 

Há qualquer coisa de dramático

em perdermo-nos nos confins do horizonte 
porque nos haveríamos de pensar em fim
se ali começam todos os trilhos de corta-mato
porque rezar o repouso dos mortos quando
podemos voar com as asas tricolores do condor
e prolongar para além do tempo e do espaço 
como tudo o que é imortal 
o novo, fresco trigo ceifado 
atirado livre do colarinho duro das estações 
e a voz oculta dos que têm fome não têm refeições.

Eu nesse momento inspiro
insisto na exibição artística frustrada
no desmaiar da bailarina em estrada
bicos em alcatrão fervente de Verão 
assim são as lides do amor mercenário

 







domingo, 18 de janeiro de 2026

A celebração do nascer

Pela percepção ordinária de uma estrela 
um ponto onde convergem múltiplas exigências 
a pele tapeçaria de anos que ora se pisa ora se expõe 
nessa infinita dança cósmica, cada cor é possibilidade 
experimento mundano, de comum desatino, vespertino 
companheiro onírico de dança e choro, imprevisto 
abstracto é o paladar de cada vez que se desenha um traço 
Brutal o corpo edifício que se ergue contra o mar
como se ali tivesse sido depositado o medo
atracado perante o desconhecido limiar visual
preces, flores, oferendas
o mundo que se dobra em queda parede
para além da linha que desenhamos no mar 
lá bem no fim onde vai caindo e apagando-se
Edifício de peito aberto perante o fim
sem qualquer medo..livre por fim 
Vais pelo abismo fim
batendo inútil asas tu borboleta frágil 
Às vezes não encaramos esse declive de água em queda
preferimos imaginar que o ar se espalha e condensa em tudo
tudo é existente aquático e mergulhas tu
afinal dentro de água somos anfíbios 
em vez de pássaros sem asas ou homens perdidos no espaço 
e tudo é amparo e voltas de baile a realidade sem fixação 
porque a consciência e a beleza estão por nascer
oh ventre puro de verdades amnióticas
tudo é fornalha, fogo para consumo depois de nascer 
depois da engrenagem ser posta em andamento não há mais
volta atrás, volta para dentro, volta para a célula, volta mãe 
e mesmo em todo o vasto universo, por muito batido 
areias, pontes, montanhas, rios e seios
não se volta a sentir esse envolvimento quente e perfeito 
seguro, vermelho, ardente, de carne e possibilidade de nascer
nem todos nascem, alguns caem, outros são puxados ou sugados 
poderíamos supor que isso moldaria a nossa fibra de existir
porque uns quase que morrem asfixiados 
enquanto que outros anestesiados, abandonam o meio perfeito 
sem querer, sem irromper... Sem rasgo
a cria nasce roxa e precisa de chorar para se sentir viva
para se lhe bater o coração, e a pulsação ser rica
e os cordões terão de ser livres... corte de carne a sério 
para ficar bem visível a grande mentira da vida
não há nada que vivo esteja que não esteja preso por amor 
e todos esses anos que se lhe seguem...em busca do ventre 
havia consciência, sim. Seguro. Amortificado. paredes sólidas 
Nascer é imposto, é desafio. É ordem. Existir
E é preciso que por todos esses anos de anoitecer, se ignore
se esqueça, se consiga controla e dominar essa que é
a única constante: arte, vida e percepção 
Eu nasci de rasgão, no dia mais quente do ano
por isso amo o Inverno e todos aqueles dias de praia cinzentos 
que o mar convida ao regresso 
ao mergulho amniótico em que todos somos e não somos
Ondas de partículas, ondas que se erguem no molhe e se 
quebram no olhar que nos molha de choro


A realidade é tão volátil quanto o nosso movimento ocular











 


domingo, 7 de dezembro de 2025

Ite, missa est

 Das brigadas do tecido azul
cósmicos os tons ondeados da íris 
quebram-se de rasgos águas ferventes
nós dos dedos sacros cobertos de terra
Havia geada nos corações dos homens 
bicicletas caídas nas beiras de estrada 
peluches atirados do telhado e das fendas
figuras muito negras 

Sentaram-se no colo do sol de inverno 
de olhos fixos fulminantes no absurdo 
pela culatra do mundo 

o segredo nuclear habitava o negro dos olhos
na pele macia dos mortos
andava de cabeça para baixo 
cabelo descaído sobre o rosto
musgo debaixo da língua áspera 
e pequenas figuras alojadas na dentição felina
A mulher ergue a cabeça mãe, pescoço caule 
enrolada como erva má 
longe de ser vazio enredos e refúgio de horrores
Brilha no crepúsculo pétalas de rosa em coro
desconectadas as seivas são saliva seca
ergue-te oh insana cabeça de víbora 
da mundana canseira da labuta

Cada dedo bifurcava em atómicos cachos
cada dia prolongava em atómica hora
e os veios inchados de tanta pujança 
para punhados de vida em boa aventurança 
-tenho vivido em pleno toda minha temporalidade 
As palavras enrolam-se-me na pulsação dormente 
dos dias, dizia que nem todos eram habitados na cúpula dos deuses
havia quartos intermediários uns de recobro outros de dor e muitos mesmo de sonhos por definir 
as figuras de pedra estacionavam na panorâmica 
terraço de graus rotativos que rangiam 
como de noite no céu da boca em frescos 
e a fundo negro o céu do amanhecer sem querer
às tantas zumbidos e arranhões de garotos
a pele no fio lâmina para fatiados de amanhã 
Alguns vivem sem apetite, como isso é formidável 
são planadores sem catástrofe, em pura calma 
outros estagnadas lâmpadas de tecto, cegantes
gosto das ventoinhas de tecto, pêndulos horizontais 
hipnotizantes de ritmo furtivo
lembra quando entravas na roda ou no elástico 
hélice espiral vibrante e depois sair com mestria 
pousar de novo o pé no chão com convicção 
hirto, verticalmente existo


Este terminou, outros virão. 

domingo, 2 de novembro de 2025

A sedimentação do caos

 Em nós habitantes do verbo
compostos cuidadosamente no musgo 
na lágrima da teia, na castanha caída 
vago e materializado alheio de constelação 
construção de aberração e abismos brutos
trágico de brumas violeta fúnebres 
penalidade da paisagem faústica
arquétipos do combate violento da manhã imensa
amor esse ritual de oráculo inválido 
o pathos indecifrável que depois nos arde por dentro
tudo terá o peso do passado estóico 
uma tendência impurgável do estuário da mente
tudo é beira de máquina registadora 
Fio de lâmpada pendurado no tecto
Tecto céu que arde em lume brando 
estéril nu monólogo que trazíamos interplanetário 
sobrevoa a tudo isto comigo
sobrevoa em sobre voo tu e eu

Quando fotografei o rosto tinha o sulco do tempo
uma infância em rosto de velho, sorriso eterno

Talvez fosse sulco de sangue
acidente que se explica na violência 
quando se nasce no avesso, lado feio 

Estava lucidez, nunca estive tão plena e limpa
E da região báltica do meu coração serena

Havia um eco guarnecido de uma luz verde intensa
cor de verde atómico gâmico
Talvez uma cor de silêncio ensurdecedor 
de couraça de dureza que na surdina da madrugada 
nos pesa no seco, da boca se calhar do vácuo 

Às vezes a besta parece-me tão longe
que o ódio agora só me artificial 
Somente só.. nunca mais sentiria
A quimera acorda aqui a teu lado 
Finalmente em paz. 

Recordo-me de tudo desde o inicio
Sestas do feno, mascando o sonho do amanhã 
No Alentejo o amanhã parece sempre tão longe
as noites de varanda escaldantes, o apetite voraz
tudo para viver nada onde o metafísico é insano 
Fumos, noites infinito Céu do mais pálido riacho
tudo campos medonhos de silêncio 
Havia sempre silêncio na minha casa 
E as paredes contraiam-se-me de impaciência 
de horrores fictícios de outros nomes
parecer de uma pós guerra de si mesma 
Agora que regressas a um lugar que já não existe 
era um lugar com futuro 
e a paisagens foi revoluta, provocou a morte 
e com toda a sua sorte, aqui persiste 
em fiapos de memória 

Talvez tenha tido tantas pequenas mortes 
e os remendos de tear de lonas de aço 
Armadura mas sem amargo trago, destreza felina 
Dentadura canina, veneno reptílio e sobretudo 
Fibra da mais alta qualidade onírica 


Bravos, bravos terão de ser os próximos 
Porque agora em consciência 
cada aurora bate dentro do pano
E de cada vez que sobre o pano
sequestrado pelos sete cantos do universo 
Eu sei, estou vivo, sou eu o próximo verso e 
declaro o poema infinito ginástica espiritual 
pelo luto do primeiro momento 


Grande força tem a palavra
fala de quedas de neve ou de febres de guerra
fala da grande alegria e da universal agonia 
fala de todos mas rigorosamente todos
passarmos pela mesma linha
Gosto do olhar ternurento da despedida...

E da lágrima caída 
que diz, terminei, continua TU
















domingo, 28 de setembro de 2025

Cabeças Falantes

Dedadas a óleo e um âmbar de candeia
Obscura verde pantanoso uma janela fria
para inúmeros retratos que trepam a obra
um banco tremolo onde crianças trampolins 
se deslocam do sonho para a prova em gelatina
e sais de prata...
do Retrato ecoam esgares de gansos de gesso 
que ao canto do espelho se observam do avesso
criação de viagem no tempo
arquitecturas de memória temporária, caducas
Os cabelos enrolam e baloiços brincos de 
mais do que humanos, reconfigurados de molduras e recantos de roubos
molestantes da mente 
Às vezes respirar só à deriva
cânones de ânsias e formas inéditas de reentrâncias 
para juntar as peças e peso, de estarmos coeso
Reduzidos ao mínimo mistério 
proposta de visita em directo diálogo.

A minha mente tinha rampas
processos elevatórios junto á beira
Estamos sempre a um passo do depois..
tão frágil passo que pisando a fina camada de gelo
 passo 1 - sou feito de penas;
 passo 2 - caio à terra feito de ferro;
A pintura reduz-me á tela, não queria a musa
nem a lágrima da viúva 
O curral.. furacão..o vitral.. dilúvio e projecção 
Tinham crescido dentro de cubos, eram cubos
Experimento de mundos mudos, surdos.. obscuros 
E para espiar da aresta, o pescoço curvado 
Corpo manipulado cheio de ransos rarefeitos
olheiras até ao peito e cabelos colados de sebo
o lugar do extremo que agora ocupa vagos
Somos todos produtos de vácuos 
Néon para indicar a culatra da gente 
E alvéolos de sonho..pranchas de desenho indivisível 
Nasce sim uma figura de pé 
Da aparente disrupção narrativa 
Busto incompleto do mundo
Tal crânio vazio exposto no espelho
Polychromio sem alma, por isso sem desejo

Esfoladas ninfas
impressão tatuada de rasgos pedaços 
desenhos de lápis em papel marfim
página de álbum de catálogo de horrores 
corpo esculpido de fim de tempo
Corpo tombado em repouso
talvez quebrado no espaldar da cama
ou arrancado à infância 

Qualquer objeto podermos ser nós 
Qualquer nós em qualquer momento 
suspenso no tempo 

A sombra fica, projector de chão 
fica colada na parede da fita
Familiares...fases de corpos cem valas 
A moldura da execução do fim
Apropriada a campa céu vertical 
Porque se morre de pé 

Como uma onda parede tsunami 
Pancada 










sábado, 1 de março de 2025

Pagad

 
andam os pássaros desarvorados 
tontos no céu 
en piruetas habilidosas de asas
acidentes de ninho 
estão os céus cor de rosa
no mistério da unidade etérea 
elemento ar e desapegamento de terra
o meu peito também é desarvorado
pentagrama para baixo e substância imaterial 
tem o seu próprio mapa sideral
A noite cai húmida pela cintura 
busca por ocasos profanados
a noite escura transgressora liberta
e a lua de trono coroa com orbes
candeeiro de templo portal de alma
á espera da colheita final
havia o tempo de ser criança 
do entendimento primário e contra baloiço 
de correr livre de roupa e balança 
físico, meta sereno e empírico 
ornamentos de jardim simbólico 
com cabeça de esfinge, carros de triunfo 
e leões negros de peluche
esses foram os pilares do meu tempo
função hermética de cabeceira de vento
e moínhos no cimo do monte
o tempo das garrafas de ar
dançantes 
cristais de azul lápis e tela virgem
e cavalos de pau fixos no sótão 
esses são os páteos da minha cabeça 
da loucura atual instante 
o lugar da fantasia a dentro 
imagens que agora são âncora 
cabeça de chacal e força 
talvez demasiado centrípeta 
era uma noite forte e escura, ermita 
encarnada do cativeiro do corpo 
e cavalgava abrupta
para o culto do meu esqueleto 
o meu corpo sangra agora
na criação de horas mutantes
sementes que depositei no horizonte 
para envelhecer no alpendre 
e ao meu lado senta-se a criança 
que sabia de cor o alfabeto 
que somava e subtraía
as dores em peças de lego
sentam-se finalmente serenas 
depois de tantas trevas
as duas em silêncio, meditando 
e no silêncio absoluto desse alpendre 
enquanto o sol nasce do seu horizonte 
tocam-se como placas tectónicas 
promovendo o milagre sísmico poético
A poesia é um grande abanão 
chora, grita, bate no chão, vibra
e significa.. estar Viva



domingo, 23 de fevereiro de 2025

Menos 89,9 graus

 
fios que numa reminiscência de obra quieta 
fios de raio de poente e da própria violenta paz

a aranha que balança na memória dos dias
ao acaso da candura do círculo mágico
o virtuosismo da imanência nocturna
na sua própria violação do espaço 
de sombras o campo tribal imaginário 
oráculos de além teia 
na noite que cai das brumas eternas
alquímica de se ver além corpo a aranha
uma alma vaga de passageiro olhar atento

bate-lhe à porta, irrompendo o monólogo 
o homem que dorme ao lume 
que se estriba na vontade de arder
para o desígnio de entrar
a embriaguez do espaço primordial
o chão uterino de buracos dantescos
o poder oculto que no sulco da alma
lhe causa um arrepio grotesco 
bate três vezes gritante o movimento 
quatro cabeças, três pernas e uma unha gigante 
os outros bichos recolhem ao buraco
o buraco do Diabo quase imperceptível 
e o homem de acre lucidez busca de agasalho 
se queres entra que eu saio
uma criatura envolta de ligaduras
esguia a língua bifurcada na direção do lume 
para lhe tomar as labaredas e as vísceras 
senta-se na sua poltrona de mantas de tear
e põe-se a cismar...morreria de frio tísico 
elouqueceria de solidão, mudo
e cada pedaço de carne devolveria à terra 
o veneno da melancolia definhada
assim a aranha espiava atenta sem tecer ponto
os fios absorvidos na mais ténue petrificação 
a sala respirava tímida nas horas lentas 
e novamente três pancadas na porta
para o apuro da alma do velho homem
um lobo tremendo cândido 
olhos brancos, língua branca arfando 
chegas tarde Rahel
mas entra, faz-me companhia 
aproxima-te... 
repara que não estamos sós, além no canto
Deus crê que é invisível aos nossos olhos 
..repara na sua covardia..bastaria um sopro
um comprimento de língua.. frágil, patético 
este nem luta deu...entregou-se sem negociar
ao abismo..a noite está fraca, cada vez mais
velhos..mais carrascos de si mesmos
garatujas de vermes outrora homens

a cabana cheirava a resina, pinho e avarento
da janela quedas de neve e algumas estrelas
talvez uma cabana encalhada 
num qualquer ponto de antárctico 















domingo, 9 de fevereiro de 2025

Alba a noite

 
Talvez a noite oprima
com o seu ronco de trituradora 
e engrenagem delirante 
Talvez a noite nos caia em cima
cúpula de espartilho branco
e absolutamente quieta, a alma
se vista de gente
cristalina a lua ou porcelana da china
ceptro de encantamento e vagar
e o horizonte amainado no canal
formas fantásticas varridas do firmamento 
sonâmbulos, na beira das alturas
dos beirais tétricos pausando
como farrapos trémulos do mergulho
que partem nos céus para a alvorada 
Andorinhas de cenários desolados
E sentada no tecto do quarto 
suspensão de teias de tédio 
moldam-se linhas de voo além tecto 
Estreita a língua da terra
que enrola e desenrola pantanosos desígnios
semblante de criança 
retrato de choro natural
sede de nuvens rosadas e quentes
e colos áureos 
Começamos pelo embalo
cordeiros de cabeceira combalidos 
havia sinais negros na encosta
braços rígidos como se estivesse morta
e várias milhas de paredes 
templos de neve e sede
Mas o lugar das coisas quietas 
é no poema que sofre em silêncio 
Por isso habitamos em moínhos de vento
ou talvez um farol no espaço sideral

Talvez a noite se vista de coisa fantástica 
no labirinto das coisas que se sonham
no lugar do tecto que seja o ventre 
e a língua se desenrole de caminho
do poema desígnio que se olvidou do início 
porque todo o poema tem o seu suicídio 














quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Monumento negro

 
quando todos os poemas se acabam
uma fina teia de aranha que se come a si mesma
para cair no seu terrível fosso de astros
estão espectantes lugares vazios 
tochas que oscilam nas paredes antigas
relicário de ventos peregrinos 
e as mãos que lhe tocam que brincam
que desejam no espaço traços aracnídeos
qual maestro de melodias catatónicas
tem uma dor tão profunda quase terna
que mata a lua fora de órbita
e o rosto pálido lhe toma os contornos
minguando-se de contemplação
e plana como um micro passageiro
de uma criatura agora aérea 
piloto de coisa nenhuma oxalá paz
sente um ardor chama a dentro
contração de flor de poente exausto
um sonho em queda livre e entregue
músculo petrificado de veneno lúcido
para depressa ser devorado sem mais pressa
no aparelho vítreo digestivo da mente
e o poema não é mais poema
só palavras desapegadas da engrenagem
raízes que secam ao sol com cheiro de podre
de conteúdo regurgitado das avessas
vocábulos contraídos de muito velhos
com frios fetais de paragem ventral
e as árvores copulando entre si
as folhas enroladas porque livres de palavras
com as nervuras descoladas dos seus tecidos
húmidas num clima boreal camaleónicas
vasculares da loucura além terra
em gemidos de sufoco e violento sangue
o movimento espiral de aceleração sinistra
lhes corta a respiração estonteante 
nesse rodopio de massas difusas o caos
a velocidade de mais força e o aperto
um punho que se cerra as unhas que se cravam
os dedos entrando pela palma no rebentamento
da pele que mais não estica e não contém
os ossos soltam-se das suas articulações
a cartilagem desfaz-se em coisa líquida
transbordam-se também eles pedaços de corpo
no terror de serem atirados ao espaço muito sós
qual estrelas plantadas no céu em silêncio
sem constelação, sem nome, letras, números
estrelas de catálogo de oficina de beira de estrada
manchadas de óleos e pedaços de correntes 
com odor a urina e cigarros mal apagados
oficina de poetas acabados de nascer
de partos de máquinas por remendar
plantados na beira do fim de mundo
nos limiares pós apocalíticos sem profecia
poetas de niilismo de poesia nenhuma
ali entregues na poeira dos baloiços do abandono
de movimentos perpétuos e sem choro









sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

de esmalte azul

 
como uma obra completa mais um conjuro
a forma do corpo homogéneo petrificado
o movimento constante já expelido do agir
para a consequência perpétua do alimento
do corpo sem voz ou da pele sem carne 
do pálido antes opulento embalo de vento
partida para uma qualquer ilha batida de sol
onde cada árvore se aninha no céu inexorável
as aves trazem mensagens nas suas asas 
paira sobre a ilusão uma realidade semi dura
mental e emotiva pulsante de pinceladas
cremos que cada significado tem o seu lugar
sobre os promontórios da alma
a seiva da memória ceifando drástica 
um quadro onde tudo se vai desmoronando
na sua roda trincada embalsamando o animal
ainda vivo, derrotado de insondável imaginário
tinha-me habituado ao estado onírico e hoje
talvez a noite caia com prudência e ensaio
para se celebrar apenas as horas na beira da falésia
imagens sem contradição
o grito das gaivotas desaustinadas 
numa praia apenas entregue ao eco
caminhos brancos para estrelar o ventre
da profundidade que rebenta na areia
essa candura dilacerante de véus
que nos traz os mortos à luz da sombra
espelhos de frente para espelhos vestidos 
de algodão e pó de arroz e manchas escarlate
rodopia o vestido outrora branco e intacto
fiapos de esmalte rabiscando nas margens
palavras que não se ousaram escutar
e de todos os búzios e buracos negros
o silêncio aterrador do teu silêncio
capaz de tornar definitivo o momento
esse pêndulo que se estagnou
não mais pêndulo antes estaca 
e nada mais mensurável ou destacável
que o tempo nada mais tem sabor que mártir
a paisagem desdobra-se para nos ignorar
estendem-se passadeiras de corcéis berrantes
cartas atiradas como baralho desaustinado
ou folhas arrancadas da imobilidade da lombada
figuras vivas aladas afluindo e regurgitando 
peixes rasgam o manto gelado em piruetas 
e acrobacias danças de perigosas espirais
vêm aterrar a meus pés encardidos 
de praia de inverno de lugar de interior
saltam suplicando tontos de asfixia
posso com as mãos levanta-los sentir-lhes a pele
esguia viscosa posso aguardar e olha-los nos olhos
para esse último esgar que dá lugar a olhos vazios
para depois com estes pés nus calca-los na areia
e enterrar a morte como se fosse uma coisa feia
e sacudir-me como um grão de poeira 
desatar a correr como habitante aérea 
cada passo mais largo cada movimento mais lacto
posso explodir-me para desaparecer na ordem
e deixar que fotografem a extensão de cada célula
agora cingida pela rebentação de uma e outra onda
e todas as ondulações que o mar continuará a trazer
sem nós







segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

um pássaro em fogo

 

desfilam rostos numa linha de sol poente
os pés mitigados da arquitetura de pliés
profundos, fluídos...para a verticalidade
edifícios plásticos como carne para ossos
colonos orgânicos da metáfora da natureza
mais crítica e severa assim concha em espiral
o processo de casa abrigo corpo interior de luz
aço, betão, terracota impondo muros e tectos
e um aeroplano rasgando copas em órbitas
fazendo frente ao vento contrário da mente
aterrando no umbigo fustigado do mundo
a bordo de um simples e tímido insecto
não asas de cera nem papel de lustro
a longa caminhada da fantasia lunática
gloriosa loucura da máquina voadora
de uma ponta à outra da terra
implantar-se de mais cruel e vil espaço bélico
as cinzas transferidas para um outro tempo
lugar de pulsão e aberração objeto de sangue
fórmula de matéria que se desprende da alma
na abstração sediciosa das coisas raras e belas
no encontro grosseiro dos nossos cadáveres
exploradores polares 
assim também os cavalos morrem de frio
e as palavras olham de frente para a morte
exaustas de provisão e posteridade
sucumbem à distancia do alimento e da cria
verdadeiramente sós no seu diário
conduzem os cães trenós oníricos 
na caça à baleia a expedição do abismo
e a condução veloz de mais fundo
às almas livres os passos antes elevam
se entregam as rédeas na tutela de nadas
para levitar um submarino 
um pássaro em fogo
a insustentável brisa de uma força centrípeta
nas intermitências de cada respiração
no bombeamento de cada vibração

a obra perfilha-se, ama-se, odeia-se, rejeita-se
vomita-se de mais obra
o trágico alimenta-se de mais trágico
o peso de mais peso
a dor de mais dor
e o fim de mais começo

e é por isso que quando adormeço
no medonho odor deixado de cadáver
nas planícies devastadas da angústia 
desapareço como facto consumado

por isso...
não durmo...sonho





sexta-feira, 22 de novembro de 2024

criatura psicosis

 
nos alicerces do declínio das brumas
a endógena panorâmica do edifício 
esse prado junto ao céu impressão universal
linhas retas de cimento com janelas de olhar
decompostos eruditos uns mortos outros vivos
e um estendal cordão umbilical de rasgo perverso
lemos na apreensão estética antes de tudo ser estrutura
antes do medo e do futuro no batismo do mundo
na arte do arrasto de figuras sem amarras
figuras que se atiram ao fosso porque sabem ter asas
para nascer tantas e quantas vezes na sedução gravitacional 
na aproximação vital ao chão 
nesse acolchoado de suspensão aérea ou resistência
a ideia ardente de chama que se devora e retorna
e no entretanto o embalo do xaile materno no corpo
uma ternura tão bela que quase leva ao choro
e sabemos que as lágrimas quando se soltam do rosto
ascendem para se juntar ao grosso atmosférico 
assim quando aterramos o rosto já seco e limpo
e tal como o mar
essa agonia fetal que o mar entrega na areia
de serenidade pós parto
depois morno manso para se entregar ao vazio 
no porto de agúrios soturnos 
num vai e vem de redes metálicas a peneira dos dias
os pés caminham calejando-se as asas recolhem definham
os cabos que mordem linhas isco de cativo
como um pássaro de alma sem casulo
a tristeza fecunda exposta radiografada
fecunda e refeita na fúria das castrações cíclicas
e um grito que do silêncio se faz vivo
de parar-se esse pêndulo perpétuo 
de orações que nos desfazem em lutos
são passos que deambulam espectrais
que percorrem os ângulos cantos desse campo santo
cativos da laboura sanguínea
epitáfio de ferro fundido em que nome nenhum
declara o indivíduo
o jejum da dor nos laços indissolúveis que a memória
drena da miséria 
um espírito que se vai erguendo de arcadas de besta
de ventilação medíocre 
de cicatrizes fendas de vago e vácuo
adiposo de abismo
se vai vergando e encolhendo de mais pequeno
se vai entregando lento à terra que depois se remove 
se mistura se molda para recebê-lo de volta

entrego-me à escultura
dessas novas criaturas...
 


domingo, 3 de novembro de 2024

Brisa marítima

incansável terra de utopias de fogo
amazónica metrópole onde vagueamos
sem rumo, uma patagónia de voos
sem embarque esquelético ou nervoso
distante de enfados e microclimas de luz
diz-se apelo do sul dos antárticos da carne
há o roncar do girar a que se segue 
uma alma em bruto
de um farol qualquer de vento pacífico 
ilhas avistadas do desconsolo, penhascos
a terra forca de tensões pneumónicas
e o animal embarcado fotográfico
as quatro linhas de um retrato calafetado
numa espécie de maldição fornalha 
tudo esmorece lento, regresso a entranhas
era uma singela embarcação para baleias
para milhas de estreitos sem alvorada
horas quietas águas petrificadas
colónias de corvos marinhos e tentáculos frios
vigias do horizonte delicado em choque
o pescoço retira-se da corda
a vela recolhe-se
combustível de nuvem pulvorizada
monumental o animal evade-se
a palma do leme desfaz-se
para tocar a superfície sem arpão 
agora bicho de estiramento extenuado
a dura caça dos céus encobertos
está a pele de arremesso dos golpes de retoque
a tarefa de aterrar no fantástico recorte
a carne desprendida dos ossos da ternura
que um dia se cansaram
o ministério do silêncio olho ciclone 
minimalista num plenário de urgências
de fins científicos e sonhos de finas cataratas
está a doca seca de choro
camuflada de gaivotas em coro
a cloaca planetária da alma indígena
onde se esperam batalhas a nu
as enseadas nucleares foram rebocadas
da mais densa profundidade ancestral
marulhando a gaivota socateira
olho branco cargueiro de fantasmas
para desovar um mundo novo de brumas
tem andar de pelicano película de laboratório 
mão de apanhador de coral
ruas submarinas para dar ao molhe 
e conseguir repousar na eternidade 
a carta salpicada de acidentes
desdobrada das enseadas dos olhos
a pique até ao fim

separamo-nos da baía dos tristes
na luta do estômago das redes
em pormenores de finisterra
para se afundar na demanda temporal
nas manobras da neblina cartográfica 
a pique até ao fim





terça-feira, 29 de outubro de 2024

O mausoléu dos notáveis

 
a paisagem construída brutal de decalque
onde tudo é aparente repetição de abismos
na obsessão de percorrer de dentro para fora
um labirinto de sombra e novos horizontes
a gravura que atravessa o olhar extravasa
sobrepõe e simula o valor naturalista 
desvela a influência de rasgos de toranja
de altos e baixos de pedaços de memória
uma mimetização cromática desses seios
esse corpo curva maquete de ocres expostos
de cores quentes e vibrantes de verão que se despede
no metálico azulado de um céu empedrado
as mãos cópula frias na sua escuridão ramificada
e um rasgão na tela no canto dos apertos
lá onde batem as linhas do fim do mundo
depois o caixilho qual figura vertebral da peça
a dor de se manter de pé a fantasia latente
lírica em cada suave pincelada de pequenas figuras
figuras humanas aladas de invenção
depois os olhos noturnos das sementes que brotam
vigilantes acutilantes de uma fome de mais tela
persegue-se o desfoque a mão que doma o pincel
o carater não rigoroso mas preciso de intento
numa espécie de abstração do momento
o rural do silêncio contrasta agora nas paredes 
a cidade galeria contentor de anímicas vigas
de apertos e dilatações uterinas 
a serenidade bucólica foge-nos pelas ogivas
como uma grande ventania abre-se de ruído e correria
sirenes e gritos, desespero de aflitos e distantes
que aos ouvidos de rompante nos atiram lá para fora
perpetua-se a labilidade, talvez nem dentro nem fora
algo que não pode sentir o seu fim na tensão 
entre a vida e a morte
tudo o que está descrito enuncia a eloquência 
de alguém que se possuiu de efemeridades e mutante
do dia para a noite da noite para o vazio
numa transfiguração de muitos tons de luz
e mais negro para narrativas de bicho acossado
figuras mausoléu do medo transvestido 
ontológico o sonho desperta no colo
no embalo que morre por deslize no sono
tecido comestível a pele desfaz-se nas horas
a tela mortalha mumificando a existência 
deglutidos e regurgitados somos acidente 
projetados por camadas de sobreposição
somos produto vascular do bombeamento
desse motor primordial mecânico coração
para nos depositarmos sem corpo na eterna obra do outro










quinta-feira, 17 de outubro de 2024

um retrato de Thanatos



a roupa negra estendida na corda 
quem passa benze-se afastando a morte da sua porta
os sacos pesam na mão com talos de couves pendurados
a calçada irregular que nos faz desandar da linha reta
na janela um violoncelo quase que chora 
o carro que passa e atira borda fora qualquer coisa
o céu pesado prestes ao desabafo
noutra janela a vizinha reclusa do seu corpo gordo
há algo de estranhamente errado no cenário
todos velhos, muito velhos
no dia em que deixaram de nascer 
um mundo dominó de partidas
que importam as heranças e as posses ou os sonhos
mãe nenhuma na terra vela pelos filhos
porque a todos o fim está certo e acomodado no resto
as tarefas sucedem-se com o aprumo da rotina
os preparativos de enterro, o fato e os sapatos
ficam cartas e instruções para os que ainda se demoram
as águas dos riachos correm mais lentas, as luas de arrasto
nos dias do fim tudo tem um sabor diferente
a morte iminente tem tanto de angústia como de vibrante
é nessa espera de se saber certa....para-se para contemplar
o movimento ondulante da roupa na corda
como se fosse importante decifrar o discurso latente
talvez uma razão ou uma formula que nos dissesse 
porque é que cada peça tem o seu peso 
o seu tamanho, o seu tempo de uso e gasto 
porque agora só nos serve o luto
quando nasces, durante muito tempo
ninguém te explica o que é a morte
a morte é uma grande mãe que no céu está descrita
que vela por nós até à última hora
as crianças sonham e com esses sonhos estão vivas
mas deixaram de nascer e a morte viu mais fácil
a tarefa de nos colher...agora...amanhã...sabe-se lá
quando vamos todos morrer
o violoncelo desperta, mais intenso mais voraz
é possivelmente um anjo que nos toca do além
essa melancolia que nos invade de dentro
que fluindo da janela penetrante vai colorindo
de diferentes tons de negro
porque se impõem as rotinas e as horas 
quantas pausas de mais triste ou mais intensamente de forte
e essas notas vibram, se vibram nas nossas pernas e peitos
as notas que nos sopram ao ouvido 
que têm na sua infinita sabedoria que 
a roupa que outrora garrida e vibrante
que a roupa agora pesada e negra
estará pronta para ser apanhada quando estiver seca
roupa negra que combina com morte certa

















muito concreta mente


estava debruçado no seu parapeito
olhos postos 
no céu que espelha uma constelação mental
a perceção do espaço para lugar de batimento
partem pensamentos numa terrível confusão
a cabeça sobre a almofada de ferro insana
limitantes as paredes do mundo interno
continentes de memórias de muitas horas 
tudo é tormento infundido de medo de fim
e estranhamente rico e aéreo esse estado 
com cabeça de corvo e pescoço helénico
domina a língua estrangeira do alucínio
posologia para atracar muito mais longe
que poderia salva-lo senão uma ponte além céu
dos seus dedos sentido de via régia
articulados para moldar em bruto
no princípio era ardente, violento
o gesto murro tosco criando fissuras
uma liberação prazerosa de se descompor
partindo de coisa nenhuma
fascinante esse momento de nascer busto
imbuído de vida traço a traço a figura objeto
a mesma constelação que dizem ser amar
a figura tem agora os seus próprios olhos
remoinhos oculares aquosos de infante
ávidos de ecos primitivos e vibrações cruas
imploram por pálpebras como longas persianas 
a figura tem fome de corpo, de lua, de boca
assim lhe molda então os dentes, presas afiadas
e uma língua bifurcada para que diga a verdade
mas um momento de afastamento lúcido se impõe
em pausa o escultor na obsessão da posse pondera
se lhe der braços sufoca, se lhe der pernas foge
se lhe der alma pensa, se lhe der coração chora
se chora...talvez morra de tristeza..
e se morre talvez se perca para sempre na névoa
talvez...fugindo nunca encontre o caminho de volta
ou sufocando-se nunca se consiga desprender 
sem ser livre nunca poderá ser gente
e amar apenas um busto...crê que nunca lhe chegará
assim afasta as mãos do projeto que inacabado
agora na distância de um pensamento mais claro
poderá ser nomeado de auto retrato
há sempre um auto retrato inacabado
há sempre um busto dentro de cada homem em bruto
um sonho de amor sem um modelo concreto
ou muito concretamente impossível de modelar








quarta-feira, 2 de outubro de 2024

A dança macabra das palavras

 

serão os sonhos do reumático que de noite caem
essa jade no peito para madeixas de cinza
os pensamentos da cegueira ensurdecem
atraso o passo onírico para um compasso cru
na correria de outras horas, de noites de cio
para morder os lábios reagentes de laboratório
e fosco é gesticular quase todo o compasso do voo
que tranca a pele das asas para apenas planar
os olhos pirâmides feixes de luz cénica
qual um pombo sem anilha que perdeu a sílaba
para escrevinhar livre do céu da noite
quebranto de espelho na província do inverno
de onde se parte sem cinzas para meridionais 
sem urgência, o grito da terra, ladaínha desespero
lá em baixo cada vez mais pequeno
homem criança com armações de plástico 
bicho de seda em casulos granadas
águas furtadas ruínas de fel 
e o pássaro negro talvez corvo talvez melro
motorista de lacunas e paisagens de gangrena
curva a sua espinha, a sua carcaça de mecânicos
relógios de cuco, no umbigo da dor medonha
chora todos os corpos em pedaços de vidro
lágrima helicóptero sem extintor estertor
essa embalagem crepúsculo que se deixou 
calcificada pelo tempo na pérola da memória
fendas de uma planura de covas abertas
não são pessoas, antes estátuas no ecrã da desordem
o que ficou depois do cansaço dos ciclos sem vida
chorar-se-á a brutalidade da carne num outro tempo
urnas aromáticas, óleo de cedro, canela, lótus 
para honrar os mortos

depois, mil fumarolas de credos
para levantar desses vocábulos as ossadas
das paredes dos túmulos e dos vasos 
na destreza de chacais e dos vendavais
abutres e esfinges e sumptuosas procissões 
spiritus de véu negro, grinaldas em flor 
o bafo encantador de um além concubino 
fungando de riso, dançando de improviso
o pio estalido de ópios de êxtase, seguem 
num rodopio brilhando com rastos de cometas
folhos, flores, caveiras matraqueando réplicas
rumo à superfície, ascendendo revoltos
números aleatórios, obras vivas, loucas
aparições que vestem as nossas roupas
sombras por trás olhos biombos e braços
desconcertados embriagados de atração
espiam no desequilíbrio de vultos mudos
a vontade imensa de inverter e perverter 
aparições saltitantes assomando ao pensamento
a morarem paredes meias a estremunharem 
impregnando o dia de mais noite sem mais dia
incansáveis de insónia sem repouso
esgares da demência que só o esquecimento imposto
poderia deixar em aberto um morto exposto

e há um sopro de que tudo isto pode
do vai e volta e vai e volta sem quebra
que depois de ida a alma regurgita de mais vida
que deambulando frenética de movimentos sem juízo
se desfaz de mais escarlate e a boca de mais incêndio
que nos habitem os prédio devolutos do insano
que nos pratiquem de malabares e improvisos 
inventores de credos para deuses supérfluos
rebeldes de punhos bravo e migrados dos meridianos
das amarras pobres e terrenas da morte
que nos digam que não pode, porque
em nome dos poemas arrebatados dos nervos do sonho
ai pode pode